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Torres

O ENCANTAMENTO

Durante mais de cinquenta anos vivi numa só cidade. Mas esta cidade, pouco a pouco tornou-se tão grande, que um dia acabou perdendo as suas margens. E em meio a tantos excessos daquele gigante que ela havia se tornado, estranhamente, algo começou a faltar. Um incompreensível sentimento de não mais fazer parte dela foi crescendo, até que por obra do destino, tive de me mudar. Vim para um lugar que eu supunha conhecer, mas ele era tão repleto de horizontes, que me perdi em seus intermináveis caminhos.

4.Morro-das-Furnas-janeiro-17-40x60cm

De Torres, consegui ver Porto Alegre. E o que vi já não era uma cidade, mas algo muito além disso, para o qual eu estava definitivamente incapacitado. Em Torres, quando descobri a natureza intacta, indiferente ao insistente avanço da cidade, embarquei numa relação com a paisagem que me tomou os dias. O mar, pai de todos, estava lá, murmurando a sabedoria dos milênios, e o limite que ele parecia impor aos projetos humanos, me revelou o quanto eu era pequeno.

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Essa percepção despertou uma paradoxal autoconfiança. Senti então emergir em mim algo muito remoto, já esquecido: a noção de pertencer a um lugar. E me vi numa nova realidade, na qual não é o homem que modela os lugares, mas o contrário.

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Lamentei profundamente todos os lugares desfigurados pelos homens. Mas afinal entendi, que ao fazerem isso, o fazem a si próprios. Por isso, a Torres que celebro hoje em minhas pinturas, não é cidade, mas lugar. Pinto para reconhecer este terreno. E humildemente, contribuir para que esta cidade que se agita, tão ausente de suas belezas, sinta-se um pouco mais ciente do lugar onde está provisoriamente hospedada. Nesta frágil investida contra a insensibilidade moderna, descubro aqui, preciosas pessoas empenhadas na mesma tarefa. E afinal, descanso.

Jorge Herrmann

As obras que ilustram esta edição, estão disponíveis para aquisição no TERRITÓRIO DA ARTE, atelier de Jorge Herrmann, (rua José Picoral, 174 sala 3, em Torres/RS), ou pelos contatos: arte@jorgeherrmann.com / facebook.com/jorge.herrmann.t / (51) 992.407.038. São estas, pela ordem de aparição:

1) “A Cal e o Morro” – Torres/RS (acrílica sobre tela – Jorge Herrmann – 60 x 40 cm – R$ 600,00);

2) “Aurora em Torres” (acrílica sobre tela – Jorge Herrmann – 100x 60 cm – R$ 1.050,00);

3) “Do Mar, as Furnas” – Torres/RS (acrílica sobre tela – Jorge Herrmann – 150 x 50 cm – R$ 2.000,00);

“A BELEZA MUTILADA”

Março de 2017

Onde você acredita que Torres é a “mais bela” praia gaúcha? Responda sinceramente: 1) nas torres de basalto à beira-mar; 2) nas praias cheias de vida; 3) no sinuoso Mampituba; 4) no Parque de Itapeva; 5) na vista para a Serra Geral; 6) nas torres de concreto que se multiplicam; 7. na malha urbana que se expande; 8) nas ruas asfaltadas e quentes; 9) na ausência de árvores; 10) nos enormes condomínios horizontais.

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Se você optou por alguma das alternativas de 6 a 10, não perca tempo com esta leitura. Mas se você honestamente optou pelas alternativas de 1 a 5, reflita comigo: nenhuma delas é obra humana, certo? Parece tão óbvio, não? Mas para muita gente, nem tanto. Há pessoas que ainda raciocinam na antiquada lógica de superar a Natureza. É gente que despreza a evidência de que o mundo de 1 a 5, é obra de um poder criativo superior e definitivamente, não humano. Por verem-no como inimigo, nada sabem a seu respeito. E por isso mesmo, antes de qualquer coisa, seria recomendável que o reverenciassem. Mas rápido. Pois o mundo que estão empenhados em construir, está se tornando simplesmente insustentável. Cada vez mais fica claro que a sociedade que esta gente está criando, é sofisticada apenas na aparência. Bem lá no fundo, ela é tosca. Mostra isso sempre que tenta lidar com as coisas da Natureza. Sua forma de tratar o mundo natural é desrespeitosa e desajeitada. E com sua visão embaçada, vai roubando a alma dos lugares. Em Torres, temos um exemplo vivo disso.

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Esta é uma cidade que demonstra uma constrangedora dificuldade de lidar com os elementos da Natureza. Muitos por aqui, estão tomados pela crença cega numa religião vazia e árida chamada «progresso», que os impede de reconhecer o que é essencial em si próprios. Em muitos lugares, Torres está se tornando uma cidade endurecida e sem identidade. Mês passado, uma enorme árvore, que dava sentido a toda uma parte do centro, que abrigava uma enorme quantidade de pássaros e que propiciava um belo cenário, praticamente não existe mais. Foi transformada num enorme “toco”, resultado de uma “poda” muito mal explicada. O lugar está desfigurado, pois uma parte essencial lhe foi arrancada. Não há mais beleza ali. Apenas o triste espetáculo das centenas de aves assustadas que revoam no fim do dia, em busca de um novo e improvável abrigo.

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Honestamente, às vezes me parece que muita gente deveria parar tudo e voltar para os primeiros anos da escola, para reaprender algumas coisas básicas. Em minha casa, tenho um grande e velho livro, cujo autor é um certo Aurélio. Há ali um grande número de palavras, uma das quais, eu gostaria de compartilhar com alguns maus entendedores. A palavra é «ÁRVORE», e o livro a descreve assim: «árvore (Do lat. arbore)  Vegetal lenhoso, cujo caule, chamado tronco, só se ramifica bem acima do solo (…).». Que Deus nos proteja.

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Contatos: arte@jorgeherrmann.com / www.facebook.com/jorge.herrmann.7 / (51) 9.9240.7038

As obras que ilustram esta edição, estão disponíveis para aquisição através dos contatos acima ou no TERRITÓRIO DA ARTE, atelier de Jorge Herrmann, (rua José Picoral, 174 sala 3, em Torres/RS. São estas, pela ordem de aparição:

1) Árvore – Jardim Botânico de Porto Alegre (desenho a nanquim – Jorge Herrmann – R$ 150,00);

2) Árvores – Praça Maurício Cardoso em Porto Alegre (desenho a grafite – Jorge Herrmann – R$ 150,00);

3) Árvores – Praça 20 de Maio em Porto Alegre (bastão aquarelável a tinta acrílica – Jorge Herrmann – R$ 200,00);

5) Árvores – Jardim Botânico de Porto Alegre (bastão aquarelável – Jorge Herrmann – R$ 200,00).

“A PAISAGEM EM NÓS”

26 de fevereiro de 2017

Por mais que o mundo urbano tenha artificializado nossas vidas, vive em nós uma paisagem. Ela pulsa em nosso imaginário, e é resultado de toda uma trajetória de séculos. O fato é, que apesar de estarmos sendo encerrados num mundo digital cada vez mais complexo e envolvente, ainda assim, diante da imagem de uma paisagem primitiva, não conseguimos conter um estranho fascínio.

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Nessas paisagens, onde nossas marcas são discretas, sentimos que há algo, uma presença. Ela não tem forma e não se encaixa em nossas palavras, mas quando silenciamos, nos fala. Sua fala acontece por intermédio de todas as coisas que vemos e sentimos. E se soubermos manter este raro silêncio, ela fluirá em nós. Aí sentiremos o fluxo vital que conecta todas as coisas.

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Neste momento, percebemos que o princípio organizador presente em tudo, também está presente em nós. Então, por um lapso de tempo, vemos que não é necessário ter tantas coisas, e nossa alma descansa. Pois surgiu no coração a confiança de que este, é um mundo de abundância.

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Por que sentimos tanta paz justamente onde são ínfimos os sinais da nossa presença? Não será porque no fundo saibamos que esta vida artificializada na qual nos aprisionamos, não leva a lugar nenhum? Há um vazio à frente, e nossa alma sabe. Mas ela sabe mais. Sabe por exemplo, que nos lugares onde praticamente estamos ausentes, o mundo continua sendo simplesmente o mesmo de sempre, esperando que ainda reconheçamos o caminho de volta.

Queiramos ou não, lá estamos.

J.H.

As obras que ilustram esta edição, estão disponíveis para aquisição neste site ou no Atelier TERRITÓRIO, (avenida Itapeva, 253 – Torres/RS). São estas, por ordem de aparição:

1) Parque de Itapeva – Torres R/S (nanquim e grafite sobre papel – 15×20 cm – R$ 200,00) baseada em foto de Rafael Frizzo;

2) «Diante da Santinha» – Torres/RS (pintura em acrílica sobre tela – 70×100 cm – vendida) baseada em foto de Jeff Mincheff;

3) “A Pedra no Caminho da Santinha» – Torres/RS (acrílica sobre tela – 20×20 cm – R$ 300,00) baseada em foto do artista;

4) Imagem de abertura: Parque de Itapeva (nanquim e grafite – 15×20 cm – R$ 200,00); baseada em foto de Guega Mattos;

OS PORTAIS DE TORRES

Abril de 2016

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Quando um lugar não é reconhecido e vivenciado pelos seus habitantes, ele não chega a ser um lar. A consequência natural disso, é que ele torna-se vulnerável a olhares e interesses alheios, abrindo caminho para rompimentos que irão desfigurá-lo, mais cedo ou mais tarde. Mas quando este mesmo lugar torna-se espaço para o compartilhamento da experiência humana, ele passa a fazer parte das pessoas. E a consequência natural disso, é que ele torna-se parte do imaginário da sua população, abrindo a possibilidade de fortalecimento dos laços sociais. Sem este olhar compartilhado, um lugar não pode adquirir significado. E não sobrevive.

6.-Portão3

Por isso, é essencial que existam pessoas dispostas a apontar as importâncias e os significados presentes nas paisagens cotidianas, onde quer que seja. Quando conheci o trabalho desenvolvido pelo historiador Leonardo Gedeon em Torres, percebi que sua voz, era a voz desse lugar. Em todas suas ações, há um sincero empenho em mostrar aos torrenses, a Torres que lhes passa despercebida. Leonardo, que é um estimado professor da rede pública do município e um ferrenho defensor do patrimônio público, sabe que uma paisagem só adquire sentido quando ela permanece no tempo e amadurece na percepção das pessoas. Ele sabe também, que as referências históricas e naturais de seu lar, que é Torres, são indispensáveis. Perdê-las, diante da sufocante lógica das torres intrusas e dos gigantescos condomínios horizontais que se esparramam pelo litoral norte do RS, é perder o vínculo com o coração de Torres.

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Por ser um observador atento das sutilezas desta paisagem e dos seus movimentos ao longo do tempo, ele sabe ainda mais: que ela não é só formada pelas famosas falésias à beira-mar. Na verdade, a paisagem de Torres é infinitamente mais rica, e Leonardo mostra isso o tempo todo. Por meio do seu olhar, estou tendo a grande oportunidade de descobrir e desenhar uma outra Torres, cheia de meandros e surpresas. E deste olhar compartilhado, metade história, metade arte, surgiu uma publicação que foi batizada como “Os Portais de Torres”, uma coleção de cartilhas em edições limitadas, que revela as belezas e encantamentos deste lugar. O primeiro volume retrata detalhes da paisagem cultural e natural da orla marítima do município, sem deixar de lado as paisagens interiores, que são essenciais para a compreensão da cidade. “Os Portais de Torres”, através das descrições que Leonardo Gedeon faz dos marcos culturais destas paisagens, vão bem além dos limites impostos pelo olhar costumeiro e superficial. Eles revelam, para quem quiser ver, a alma de Torres.

Jorge Herrmann

As “Crônicas da Paisagem” representam uma contribuição para que as ações humanas respeitem o o direito das futuras gerações às paisagens preservadas. As imagens desta crônica são de autoria de Jorge Herrmann. Podem ser adquiridas, juntamente com outras sobre o mesmo tema, através deste site, da página do artista no facebook ou dos contatos arte@jorgeherrmann.com e (51) 9240.7038.

AS IMAGENS, pela ordem :

1) Igreja São Domingos (lápis grafite – 15×17 cm – Jorge Herrmann);

2) O Portão do Morro das Furnas (lápis grafite – 19 x27 cm – Jorge Herrmann);

3) Casario Sobrevivente – rua Julio de Castilhos (lápis grafite – 16 x 24 cm – Jorge Herrmann)

O ITINERÁRIO DAS TORRES & Outras Importâncias

Fevereiro  de 2016

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Quando uma cidade deve parar de crescer? Que limites deveria ela respeitar? Incômodas perguntas. Mas, para quem observa o preocupante crescimento das nossas cidades, são perguntas essenciais. Elas são um convite para que reflitamos a respeito de nossos próprios limites, pois nas cidades, deixamos as marcas resultantes das nossas escolhas. O tema é desconfortável e induz a um difícil questionamento a respeito das reais necessidades de cada um. Geralmente, os que deixam as marcas mais profundas nas paisagens, são aqueles que mais necessitam fazer esta reflexão. E obviamente, são estes os que apresentam as maiores dificuldades para fazê-lo, uma vez que estão presos a um modelo de vida que depende de cada vez mais bens materiais.

Diante das pesadas intervenções que nossas cidades vem sofrendo, geralmente para atender a interesses minoritários, passei a me dedicar cada vez mais à questão dos limites do crescimento.  É impressionante que um modelo de sociedade baseado num desejo de crescer indefinidamente, ainda vigore, quando os seus efeitos sobre a natureza (incluo aí também a natureza humana) se tornaram tão evidentes. Lamento, mas está parecendo que chegou a hora de desacelerar. Para que percamos apenas os anéis…

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Envolvido por estas reflexões, passei a observar com mais atenção o que se passa na cidade de Torres, no extremo norte do litoral do Rio Grande do Sul. Há dois anos me propus a acompanhar o avanço das áreas construídas sobre a fisionomia original que deu identidade turística a esta cidade. E o que observo me parece absolutamente ilógico. Se o maior patrimônio de Torres é a sua paisagem original, como é possível que ela esteja sendo sufocada pela necessidade de construir sem parar? Decidi então criar o “Itinerário das Torres”, uma cartilha que sinaliza esta equação por meio de desenhos que demonstram a relação de cidade com a natureza ainda preservada que a permeia.

As imagens acima são relatos visuais feitos em nanquim, dos panoramas que se tem quando chegamos à cidade de Torres.  Na imagem superior já não há sinal evidente da paisagem original. Obviamente, esta imagem representa um modelo, uma escolha. Porém não acredito que os turistas viajem centenas ou milhares de quilômetros para ver isto. A segunda imagem, revela a presença da floresta paludosa do Parque de Itapeva em primeiro plano, suavizando a angulosidade que domina a cidade ao fundo. Este é o panorama que se apresenta para quem chega a Torres pela Estrada do Mar. É uma visão que mostra uma relação paisagística entre elementos de natureza diferente, que entretanto, conferem sentido um ao outro.

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A equação é simples: uma cidade que ainda possui fronteiras visíveis com as paisagens naturais, pode se perceber e se relacionar com o ambiente que a acolheu e lhe deu condições de existir.  Muitos dos belíssimos panoramas de Torres ainda mantém sua integridade visual. Eles são lembretes permanentes de que qualquer intervenção arquitetônica deve ser feita com o máximo cuidado, levando em conta o direito coletivo à paisagem. Mas estes privilegiados cenários, que levaram milênios para se estabelecer e se integrar à imagem, vem sendo permanentemente assediados por interferências imobiliárias que surgem praticamente da noite para o dia.

É racional que uma edificação gigantesca se intrometa para sempre nestas refinadas relações visuais? E mesmo que fosse racional, seria realmente necessário? Sim, são Incômodas perguntas, que uns, mais do que outros, precisam responder.

Jorge Herrmann

Para adquirir as obras desta crônica e outras, além da cartilha “Itinerário das Torres”, solicite neste site, na página Jorge Herrmann do Facebook ou ainda pelos contatos: arte@jorgeherrmann.com / (51) 9240.7038. Para conhecer as demais obras que ilustram este tema, acesso a aba “Acervo” deste site.

Imagens postadas nesta crônica : “AREA CENTRAL DE TORRES/RS – 10×15 cm – nanquim – R$ 120,00;  ”MATA PALUDOSA DE ITAPEVA COM TORRES AO FUNDO –  nanquim – 10×15 cm – R$ 120,00; PRAINHA – nanquim – 10×15 cm – R$ 120,00 por R$ 200,00;

Cartilha “ITINERÁRIO DAS TORRES & Outras Importâncias” – formato postal – 12 páginas – R$ 10,00.


TORRES/RS (ou S.A.)

Março de 2015


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Quando deparamos com um enunciado escrito com caracteres estranhos, percebemos que há nele algum sentido, mesmo que não o entendamos. Seu significado exato nos foge, mas é evidente que em seus ritmos internos, há uma mensagem cifrada. Diante dessa situação, podemos simplesmente virar as costas, e isso aparentemente não fará diferença alguma. Mas se, pelo contrário, desconfiarmos de que neste enunciado há algo que nos diz respeito, possivelmente faremos tentativas que nos permitam iniciar um diálogo com ele. Mas para estabelecer uma mínima conexão com seus sinais, é necessário que estejamos disponíveis para buscar contato com o fluxo criativo que o gerou. Na mensagem acima, não há nada escrito. Mas seus sinais se encadeiam de acordo com uma lógica interna que é fácil identificar. Há aí algo sendo dito, mas sem palavras.

Admitamos agora que esse enunciado possa ser comparado com uma paisagem intocada, ou seja, fruto de um fluxo criativo de origem não humana. Da mesma forma que o enunciado gráfico, podemos virar as costas para a mensagem sem palavras que esta paisagem emite. E isso aparentemente também não fará diferença alguma. Engano.

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Virar as costas para uma paisagem pode ter profundas consequências sobre nossa percepção de mundo. Ignorar o seu significado pressupõe o direito de transformá-la indefinidamente. E às vezes essa transformação é tão brutal, que sequer restam vestígios do enunciado original, fruto de um fluxo criativo que nem chegou a ser conhecido.

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A cidade litorânea de Torres, no sul do Brasil, exemplifica de maneira dramática a violenta transformação que a sociedade industrial vem impondo à superfície do planeta. Sem ter conhecido minimamente o seu território, esta cidade tem sido vítima de um modelo de crescimento que não consegue mais reconhecer limites. Situada em um cenário natural privilegiado, que lhe confere um invejável potencial turístico, Torres demonstra uma constrangedora dificuldade de diálogo com seu próprio território. A paisagem de Torres, na verdade, é um conjunto de belíssimos ecossistemas encadeados, que conferem sentido uns aos outros. Praias, falésias, dunas, lagoas, rio, remanescentes da Mata Atlântica e o imponente perfil da Serra Geral que desponta a oeste, falam um complexo e sutil idioma que poucos têm disposição para tentar entender. Como resultado disso, um idioma repleto de angulosidades, está se disseminando por todos lados, impondo à cidade um ritmo novo, inorgânico, rígido.

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Desde o ano passado, observo a oeste da Torres, o recorte suave da Serra Geral, uma importantíssima referência visual sendo gradualmente bloqueada pelas construções. O contato com esta evidência geológica que testemunha o passado mais remoto de toda região, está se rompendo, como se não fizesse diferença alguma… No leste, as torres rochosas que conferiram o nome à cidade, vem sofrendo uma severa perda de escala, diante de gigantescas torres de concreto que surgem da noite para o dia, com severas e mal dimensionadas implicações para o potencial turístico da cidade.

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Entretanto, no morro do Farol, berço de Torres, os vestígios de um outro idioma humano resistem diante da especulação imobiliária. São pequenas casinhas, que junto com a igreja São Domingos, a mais antiga de todo litoral norte do Rio Grande do Sul, amenizam um pouco a dureza do cenário das torres artificiais. Sinto então que essa singela igrejinha emana uma força silenciosa, que observa solenemente a feroz disputa por horizontes. Essa Torres remanescente, que nos vincula fragilmente ao passado, emerge então com uma beleza que parece um sopro de esperança num outro futuro.

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E subitamente percebo o quanto me sinto incapaz de ver beleza na maior parte da cidade, tomada por uma lógica que não me sugere diálogo algum. Sinto então uma imensa vontade de viirar-lhe as costas. Mas não consigo. Sou impelido a tentar traduzir essa Torres de concreto. Procuro identificar alguma espécie de diálogo entre as construções, algum sinal que aponte um propósito paisagístico que leve em conta o benefício de todos. Mas não consigo. Continuarei tentando.  J. H.

As imagens postadas acima, foram tomadas a partir de 3 pontos de vista. Veja:

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ponto 1 – vista da Praia Grande em direção oeste;


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ponto 2 – vista da Lagoa do Violão em direção oeste;


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ponto 3 – vista do centro da cidade para o norte;

Todas obras postadas, disponíveis para aquisição. Veja mais na aba “Acervo”. Contatos: arte@jorgeherrmann.com / (51) 9240.7038

Imagens postadas: “IDIOMA 1; “PONTO 1 LEITURA 2” (vista a partir da Praia de Fora) 21×30 cm – lápis de cor – R$ 100,00;  ”PONTO 2 LEITURA 3 (vista para oeste a partir da Lagoa do Violão) –  lápis aquarelável sobre papel – 21×30 cm – R$ 150,00 ; PONTO 2 LEITURA 4 (vista para oeste a partir da Lagoa do Violão) – nanquim e aquarela sobre eucatex – 22×30 cm – de R$ 250,00 por R$ 200,00; IGREJA SÃO DOMINGOS – apontamento de campo (2009); PONTO 3 LEITURA 3 (vista para o norte a partir do centro) – nanquim sobre eucatex – 25×30 cm – R$ 250,00. (Jorge Herrmann – 2015)


Sobre torres II

uma equação visual

31 de Janeiro de 2014

Há algo no ar, ganhando alturas, disputando horizontes, impressionando… gerando conseqüências. Estamos assistindo a um avanço implacável da construção civil sobre a paisagem. É a impressionante demonstração de vigor e poder de imposição de um setor específico da economia sobre outros.

Esse fenômeno trouxe benefícios imediatos para um expressivo contingente de trabalhadores. Inegável. Parece também estar atendendo a uma demanda de mercado. Ok. Em algumas cidades, aparentemente atende a um déficit habitacional, mas em outras, não. Certo. O fato é, que alguns setores da  economia precisam estar em constante movimento, necessitam de uma injeção permanente de estímulos. São como rodas soltas. Sem movimento, caem.

Nos últimos tempos, há uma palavra reiteradamente usada por muita gente: sustentabilidade. Ela tem profundos significados, e quando  usada com cuidado, tem o poder de sinalizar qual a extensão e o significado de nossas ações sobre este belo e finito planeta. Do contrário, ela perde seu vigor e se transforma em menos que nada, um som oco, distorcido e distante de seu poderoso sentido.

Uma pergunta me incomoda há muito tempo: a longo prazo, e vista sob  um ângulo um pouco mais abrangente, qual o limite e as consequências do processo de urbanização que estamos imprimindo ao mundo? Estaremos, nesse ritmo de ocupação das paisagens, de fato melhorando as coisas? É esta a reflexão que desejo fazer nesse ensaio.

Movido por esse questionamento insistente, depois de muito tempo sem encontrar uma forma de lidar com o problema, comecei algumas experimentações gráficas, influenciado por leituras de caras como Kevin Lynch e Simon Schama, e pela lúcida influência de um velho amigo, Rualdo Menegat. E as experimentações me deram o que pensar. Comecei a trabalhar em uma espécie de equação visual, na tentativa de demonstrar como está se dando a relação das áreas construídas com a paisagem natural. E cheguei a isto:

Há algo no ar, ganhando alturas, disputando horizontes, impressionando…
gerando conseqüências. Estamos assistindo a um avanço implacável da
construção civil sobre a paisagem. É a impressionante demonstração de
vigor e poder de imposição de um setor específico da economia sobre outros.
Esse fenômeno trouxe benefícios imediatos para um expressivo contingente
de trabalhadores. Inegável. Parece também estar atendendo a uma demanda
de mercado. Ok. Em algumas cidades, aparentemente atende a um déficit
habitacional, mas em outras, não. Certo. O fato é, que alguns setores da
economia precisam estar em constante movimento, necessitam de uma injeção
permanente de estímulos. São como rodas soltas. Sem movimento, caem.
Nos últimos tempos, há uma palavra reiteradamente usada por muita gente:
sustentabilidade. Ela tem profundos significados, e quando  usada com cuidado,
tem o poder de sinalizar qual a extensão e o significado de nossas ações sobre
este belo e finito planeta. Do contrário, ela perde seu vigor e se transforma em
menos que nada, um som oco, distorcido e distante de seu poderoso sentido.
Uma pergunta me incomoda há muito tempo: a longo prazo, e vista sob  um
ângulo um pouco mais abrangente, qual o limite e as consequências do processo
de urbanização que estamos imprimindo ao mundo? Estaremos, nesse ritmo de
ocupação das paisagens, de fato melhorando as coisas? É esta a reflexão que
desejo fazer nesse ensaio.
Movido por esse questionamento insistente, depois de muito tempo sem encontrar
uma forma de lidar com o problema, comecei algumas experimentações gráficas,
influenciado por leituras de caras como Kevin Lynch e Simon Schama, e pela
lúcida influência de um velho amigo, Rualdo Menegat. E as experimentações me
deram o que pensar. Comecei a trabalhar em uma espécie de equação visual, na
tentativa de demonstrar como está se dando a relação das áreas construídas com
a paisagem natural. E cheguei a isto:

Lagoa-do-Violão-vista-para-Morro-do-Farol-ponto-1-Janeiro-2014

Esta é uma representação esquemática do Morro do Farol, em Torres, visto a partir da margem oeste da Lagoa do Violão, conforme o diagrama abaixo:

Diagrama-Lagoa-do-Violão-vista-para-Morro-do-Farol-ponto-1-Janeiro-2014

A equação é singela, simples. Mostra em tons cinza, tudo o que é relativo a elementos vegetais e geológicos, ou seja, tudo o que não é construído. Por outro lado, tudo o que representa área construída, é preto e branco.

Cada paisagem é um testemunho. Ela conta através de suas marcas, quais os caminhos e escolhas que uma comunidade humana faz. Mostra como uma população dialoga com o ambiente que a abriga, estabelecendo laços e valorizando o que não precisa e não deve ser mexido. Mostra também como uma população é capaz de simplesmente suprimir esse ambiente, como ela é capaz de eliminar os vestígios do que este ambiente  foi um dia, apesar de estar plantada sobre ele. As paisagens em todo mundo estão sendo tomadas por um acelerado proceso de urbanização. Invariavelmente, esse processo de urbanização suprime as manifestações do mundo natural, e em cada lugar é necessário fazer sempre esta mesma pergunta: até onde?

Lagoa-do-Violão-vista-para-Centro-ponto-2-Janeiro-2014

Torres é um lugar que merece uma profunda reflexão. Esta cidade é sustentada por um bem precioso, mas de difícil mensuração, e de significados muito sutis, chamado paisagem. Esta é a sua matéria-prima. De que forma Torres está equacionando a relação entre seu patrimônio paisagístico e a proliferação das edificações? O desenho acima revela a equação feita a partir do ponto de vista representado no diagrama abaixo, que mostra um olhar para o nordeste, rumo ao centro da cidade. As torres edificadas são bonitas, sem dúvida. Individualmente, cada uma representa excelência em arquitetura e construção. Mas juntas, que cenário estão formando? Dialogam entre si? Dialogam com o entorno?

Diagrama-Lagoa-do-Violão-vista-para-Centro-ponto-2-Janeiro-2014

Olhando-se para o outro lado dessa linda paisagem, a partir da margem leste da Lagoa do Violão, é possível vislumbrar um cenário magnífico, protagonizado pelo recorte imponente dos Aparados da Serra, bem ao fundo. É uma imagem que faz parte do imaginário e da visão cotidiana dos torrenses.

Diagrama-Lagoa-do-Violão-vista-para-Oeste-ponto-3-Janeiro-2014

Os Aparados da Serra, gerados pelos mesmos eventos vulcânicos que produziram as atrações paisagísticas de Torres, são um marco ambiental único, que orienta o observador, informando distâncias e sinalizando o oeste. Neste ritmo, em bem pouco tempo não teremos mais a visão dessas montanhas. Ela será privilégio de alguns poucos. Mas também por pouco tempo…

Lagoa-do-Violão-vista-para-Oeste-ponto-3-Janeiro-20141

As marcas que uma comunidade humana deixa sobre a paisagem são a sua assinatura. De acordo com o princípio da “pegada ecológica”, um incômodo termo criado há algum tempo, a competência de uma sociedade está na razão inversa da extensão das marcas que ela deixa sobre o ambiente. A “pegada ecológica” de uma cidade pode ser discreta. Pode permitir que os elementos naturais da paisagem entrelacem-se com as ações humanas, gerando benefícios duradouros para todos. Muitas cidades estão no limiar de uma escolha mal feita. Torres está bem aí. Outras cidades já fizeram esta escolha e os resultados são visíveis. Para quem quiser ver.

J.H.

Imagens postadas: apontamentos de campo (Janeiro de 2014 – Jorge Herrmann).


Sobre torres

apontamentos de campo e reflexões posteriores

04 de Outubro de 2013

Quando chega a Torres, normalmente o visitante dirige seu olhar para os grandes morros e seus paredões. Mas é interessante olhar um pouco mais além, perceber as formações rochosas como parte de algo muito maior. As torres que deram o nome a esta cidade, são tão impressionantes, porque contrastam fortemente com o entorno.  Todo ambiente costeiro gaúcho que se derrama ao sul, é tomado por horizontalidades, subitamente interrompidas por estas torres. Curiosamente, tudo aquilo para o qual não dedicamos tanta atenção, é que confere tamanha importância para estas rochas que se debruçam sobre o mar.

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O mar, a planura das areias que se erguem nas belas dunas de Itapeva, as lagoas e as manchas de mato, funcionam como uma espécie de base para a grandiosidade das três torres e sua pequena Guarita. Quisera que nossa atenção se voltasse um pouco mais para as belezas sutis desse mundo horizontal. Talvez assim não andássemos por aí  tão ansiosos, transformando tudo em intermináveis cidades.

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A exuberância das torres é por demais evidente, e para notá-las não é necessário qualquer esforço. Eles invadem os olhos. Bendita invasão, que atrai gente de tantos lugares. Para o mundo que se move silenciosamente a seus pés, no entanto, é necessário estar mais atento. Sua beleza suave exige um olhar contemplativo e lento. Talvez seja por isso que no imaginário de muita gente, ao sul de Torres não exista praticamente nada digno de nota.

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Voltando os olhos para o norte, entretanto, tudo muda de figura. A sinuosidade do mundo mergulhado nos horizontes ao sul, é suplantada por um mundo retilíneo, impositivo, ambicioso: a cidade. Torres cresce espantosamente, avançando sem pausas. Seguindo a mesma lógica do crescimento de todo mundo ocidentalizado, Torres cresce. Com pressa. De certa forma, parece querer replicar a verticalidade de suas tão admiráveis torres.

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É véspera de mais um curso de percepção da paisagem na Guarita, e estou aqui para dialogar com este lugar. De cima do morro das furnas, vejo um grande grupo de adolescentes lá embaixo, na pequena praia. São manchinhas coloridas. Ao fundo, vem chegando 6 homens adultos que observam os escolares com demasiada atenção. Fico preocupado, imaginando algum assalto, mas nada acontece. Ao descer o morro, vejo o que talvez os tenha detido. Ali, na ponta da praia, estão o guarda e o biólogo do parque. Sua atenção, contudo, está voltada para outra coisa.

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Um lobo marinho está sobre as pedras. Fico sabendo que ele chegou à praia na véspera e estava bem, descansando de sua longa viagem, talvez vindo de Rio Grande, quando foi atingido por uma pedrada. Tem um ferimento na cabeça e parece estar em dificuldades. O guarda conta que há pouco, enxotou um homem que estava dando tapas na cabeça do bicho.  É incrível como o tamanho do cérebro às vezes nada tem a ver com inteligência, em se tratando de algumas pessoas. Me perdoam as ostras, mas o cérebro de uma delas, cairia bem para gente assim… Ao final do dia, o lobinho já está melhor. Dois dias depois, volto àquela parte da praia, e ele já não está mais ali. Retornou para um lugar mais seguro.

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Na base da Guarita, há uma concavidade, que sinaliza muito bem a sinuosidade da rocha arenítica. Ela sustenta a parte superior da pequena torre, que por sua vez, apresenta angulosidades e fissuras por toda parte, conferindo um aspecto mais agreste ao conjunto.  No topo da Guarita, há um pequeno grupo de urubus. Solenes, simplesmente espreitam, em sua rotina milenar de simplesmente espreitar. São aves para as quais normalmente não temos olhos. Compreensível. Mas observar a forma como se movem no ambiente, é muito interessante. Parecem senhores dos céus. Seu voo é de uma elegância capaz de driblar o mais vulgar preconceito. Voam em absoluta ressonância com os ventos, com esforço mínimo, serenos. Ao nos verem, o que veem estes senhores dos despojos? J.H.

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Imagens postadas: apontamentos de campo (04 de Outubro de 2013 – Jorge Herrmann).



17 de Maio de 2013

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É uma fria e bela manhã de outono. Ontem, o inverno, com seu triste repertório de rigores, se insinuou. Mas hoje o sol mostra sua cara. Estou desenhando do lugar onde há três semanas, perdi quase toda manhã para produzir uma aquarela sofrível. É uma vista para o norte, com a Guarita em primeiro plano. Hoje, minha disposição é outra. Não estou buscando um resultado, mas sim um diálogo com a paisagem, tentando deixar que a linha flua com mais desapego.

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A base da Guarita, formada pelo arenito, é uma espécie de saia que contorna o torreão de basalto. Suas linhas arredondadas contrastam com a angulosidade da rocha basáltica, que parece incrustrada sobre elas. Faço novos desenhos, tendo a base da Guarita em primeiro plano, mas dessa vez, com a torre sul ao fundo.

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A estradinha interna do parque, que ladeia a torre do meio, oferece um rico panorama. As estranhas inflorescências, de uma grande planta de folhas espessas e pontiagudas, despontam na paisagem.  São muito altas, verticais, dando um aspecto muito curioso à paisagem. Estas inflorescências, quando seu ciclo vital é concluído, tombam, saindo de cena espontaneamente.

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Um pouco antes de chegar à praia, a estradinha parece querer entrar no mar. À direita, está a Guarita, ladeada pela torre sul. O mar é uma linha horizontal, onipresente, poderosa. Ele parece nos observar desde suas intermináveis distâncias. Nas pedras da torre do meio, um menino faz um curioso jogo com o mar. Aproveitando o recuo das ondas, lança a sua tarrafa. Antes que o mar se lance em novo ataque, sai correndo desabaladamente, para não seguir o mesmo caminho da tarrafa. As suaves rotinas da beira do mar se sucedem. Um sujeito maltrapilho, com um grande saco às costas, acompanhado de dois cachorros, passa sorridente e cumprimenta. Somos todos, afinal, também componentes das paisagens, tão indissociáveis delas quanto suas rochas, águas e horizontes.

Imagens postadas: apontamentos de campo (2013 – Jorge Herrmann).


9 de Maio de 2013

apontamentos de campo

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Manhã de outono. Chego à Guarita vindo pela estradinha que ladeia a torre do meio. Depois de descê-la, arrisco os primeiros desenhos. Faço um esquema que revela uma torre sul emoldurando a Guarita, a pequena e tão decantada ponta de pedra da prainha. O esquema me diz um  pouco mais. Me diz que lá adiante, mais ao sul, há um lugar regido pelas horizontalidades, que dali se desdobram  ininterruptamente até o Chuí. Ali, está o Parque Estadual de Itapeva, uma reserva ecológica que protege um ambiente único no Rio Grande do Sul. E em Itapeva, começa o tão pouco admirado litoral gaúcho.

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O litoral do Rio Grande do Sul, exceção feita a Torres, é motivo de piada. A razão disso, é a exuberância de Torres e das praias catarinenses. Para os desatentos, isso é motivo suficiente para justificar a piada. Injustiça. Nos cordões de dunas e lagoas costeiras que se estendem sem grandes alterações até o o Uruguai, há uma beleza sutil. A aparente monotonia desses lugares, na verdade sempre ocultou uma imensa riqueza de fauna, flora e de paisagens. É uma pena que a desatenção e a ansiedade tenham destruído tanto desses ambientes.

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Olhando para o outro lado, me deparo com o extremo sul da torre do meio. O seu perfil é artificial. Foi provocado por sucessivas explosões que visavam obter pedras para a construção dos molhes do malfadado projeto do porto de Torres. Isso aconteceu no final do século XIX. Por razões políticas, este projeto foi abortado, garantindo a preservação dessa magnífica paisagem, ainda que com cicatrizes. Não é fácil imaginar esse lugar transformado em porto.

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Restou o perfil truncado dos molhes, riscando a linha da praia defronte à torre sul. A angulosidade das pedras, de certa forma retrata a mentalidade de uma época. Utilitarista, incapaz de reconhecer os valores intrínsecos a cada lugar, era afinal, a mentalidade possível de um tempo ansioso por provar a superioridade humana sobre todas as coisas.

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Imagens postadas (de cima para baixo): apontamentos de campo (imagens 1 a 4 – 2013 – Jorge Herrmann); releitura em aquarela (imagem 5 – 2013 – Jorge Herrmann).