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IAPI

VILA DO IAPI

Persistência e Agonia

30 de Abril de 2014

Há uma ilha na zona norte de Porto Alegre. Chama-se IAPI. Ou melhor: Vila do IAPI. Lhe cai bem essa designação. É quase uma deferência. Chamar o IAPI de Vila, significa afirmar sua identidade, que se mantém a despeito das pressões que a cidade impõe. Em quase tudo, esse antigo bairro da capital do RS é diferente do que lhe cerca. Ainda há ali uma espécie de qualidade de vida que quase já não se vê no resto da cidade. Ela é difícil de mensurar, pois envolve valores singelos, quase irreais para a grande maioria das pessoas.

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Por oito anos morei ali. Ao longo desse período, tive a nítida sensação de um outro tempo transcorrendo: fluido, lento. Entendi de uma maneira muito clara, como são importantes os lugares dotados de passado. A Vila começou a ser construída no início dos anos 40, durante o governo de Getúlio Vargas. Representava um conceito habitacional inédito no Brasil: a cidade jardim. Sua importância fundamental se deve à preocupação dos arquitetos em criar um lugar agradável para acolher a classe operária. Marcada pela permeabilidade entre os elementos arquitetônicos e naturais, esta é a sua beleza básica. Assim foi pensada e assim, de certa forma a Vila ainda é.

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No IAPI, persistem aos trancos e barrancos, hábitos e atitudes remotos, simples, humanos. Não são nada de mais, no entanto, o crescimento desproporcional da cidade os tornou raros e preciosos. Ali, muitas pessoas ainda sentam-se em frente às suas casas para ver o movimento, papear, tomar um chimarrão. Ali ainda se passeia por ruazinhas calmas e interessantes, crianças brincam ao ar livre e nas praças as pessoas se encontram. E mais do que isso, a comunidade da Vila do IAPI faz festas comunitárias a céu aberto! Mas sei que o medo está se espalhando como uma praga. Muita gente já vê tais hábitos como uma temeridade, como coisas de um passado superado. Compreendo. Mas a vida levada nos condomínios de segurança máxima, que proliferam pelas redondezas da Vila, na verdade não é garantia de felicidade ou segurança. Ao abdicarmos da vida nas ruas, encontramos uma segurança muito relativa, que não nos protege de novos perigos. Somos gregários. Não convém reinventar a roda…

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Hoje estou

convencido de que muito de nossa crise social, é uma crise de percepção

espacial. Paisagens danificadas são incapazes de gerar sentimentos de identidade entre as
pessoas, muito menos de segurança. Lugares que a qualquer momento podem ser
transformados em algo irreconhecível, não inspiram confiança. Aliás, sequer são lugares,
porque perderam o essencial. Lugares desaparecem. Literalmente. Isso acontece sempre
que o interesse de poucos se sobrepõem ao que é de todos. Sempre. Geográficamente,
podem ser a mesma área, mas na prática, estão despojados de sua alma, sua história,
tornaram-se meros índices de construção.

Hoje estou convencido de que muito de nossa crise social, é uma crise de percepção espacial. Paisagens danificadas são incapazes de gerar sentimentos de identidade entre as pessoas, muito menos de segurança. Lugares que a qualquer momento podem ser transformados em algo irreconhecível, não inspiram confiança. Aliás, sequer são lugares, porque perderam o essencial. Lugares desaparecem. Literalmente. Isso acontece sempre que o interesse de poucos se sobrepõem ao que é de todos. Sempre. Geograficamente, podem ser a mesma área, mas na prática, estão despojados de sua alma, sua história, tornaram-se meros índices de construção.

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Para um espaço tornar-se lugar, é preciso que ele produza memória. É necessário que vidas o vivam por bastante tempo. Só o passado, ao impregnar um espaço de significados humanos, é capaz de torná-lo um lugar. Porto Alegre está ficando sufocada, prensada, sem horizontes, dura. Um de seus bairros mais ricos, chama-se Bela Vista. Tem prédios  suntuosos, todos muito lindos, mas que encobrem a vista uns dos outros. Tamanha riqueza não foi capaz de dialogar com o lugar que ali existia. Lugares como o IAPI são cada vez mais imprescindíveis.

J.H.

Todas imagens postadas, disponíveis para aquisição. Contatos: arte@jorgeherrmann.com ou (51) 9240.7038.

Imagens pela ordem de apresentação: IAPI  III – lápis grafite – 11×26 cm (R$ 150,00); IAPI  V – O Laguinho da Praça Chopin – aquarela – 21×15,5 cm (250,00); IAPI  IV – grafite –  18,5X19,5 cm (R$ 100,00); IAPI  II – lLargo Elis – bastão aquarelável – 19×20 cm – (R$ 150,00). Abril de 2014. Jorge Herrman