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Passo de Torres

Reflexões

Discreta planície
apontamentos de campo
31 de Março de 2014
05 de Fevereiro de 2013

Discreta Planície

Apontamentos de Campo

31 de Março de 2014

Igrejas tem um poderoso efeito sobre paisagens. Mobilizam remotos sentimentos e se intrometem no imaginário do observador.  Estou em Curralinhos, Passo de Torres, extremo sul do litoral catarinense. É uma região pouco visitada pelos riograndenses, por não ter as belezas evidentes das praias situadas mais ao norte. Mas para mim, isso não é propriamente um problema. Não busco essas belezas escancaradas. Estou à cata de outras, mais sutis, que para muitos sequer existem. Da estradinha de chão  que margeia a lagoa do Sombrio, é possível ver a pequena torre azul e branca de Curralinhos, despontando acima das árvores. Sempre que passo por aqui, meu olho invariavelmente procura esse ponto da paisagem. Talvez seja por uma inclinação pessoal. Mas acho que não. Igrejas são edificações com um propósito diferente. Refletem bem ou mail, uma intenção de transcender, de buscar algo que nos é muito anterior.

Curralinhos-Março-2014-I

Essa igrejinha é bem velha. Pelo que me contaram, tem pra lá de setenta anos. Assim como quase todas as igrejas de pequenas localidades, parece organizar a vida do lugar. Mas ela não é a construção mais antiga por aqui. A alguns quilômetros dali, há a antiquíssima ruína de uma casa. É feita de grandes pedras encaixadas e tem grossas paredes. Pertenceu desde sempre à família Rodrigues, que há sete gerações habita parcelas de uma antiga sesmaria, na margem sul da lagoa do Sombrio. Dessa margem, com algum esforço, consigo ver outra igreja, lá longe. É uma pequena manchinha branca mergulhada no horizonte, a igreja de Sombrio.

Lagoa-do-Sombrio-Fevereiro-2014-I

A velha casa está localizada entre  a lagoa e o belo Morro dos Macacos, que descrevo no artigo anterior. A propriedade é aberta à visitação mediante um pequeno valor, e conta com uma prainha, que nos fins de semana de verão, enche. É um bom exemplo de algo que poderíamos chamar de “inteligência ambiental”, pois seus  proprietários souberam conciliar a preservação de sua riqueza natural com o aproveitamento econômico. A velha figueira, que se esparrama para todos os lados no topo do morro, é, para mim, o coração desse lugar. Desperta em mim uma desconcertante sensação de não saber nada da vida, que sempre tenho quando me vejo diante de velhas árvores.

Estrada-Lagoa-do-Sombrio-Março-2014-II

A região tem, além do Morro dos Macacos, apresenta pequenas elevações de terreno arenoso. Um dia, foram dunas móveis, hoje retidas pela fixação da cobertura vegetal. Aqui e ali, dividem minha atenção com outras figueiras, que se esparramam solenemente sobre a planura. Muitas dessas figueiras são vestígios das matas que cobriam a região. Hoje, são apenas coadjuvantes em uma paisagem profundamente alterada pela presença do eucalipto, uma árvore exótica original da Austrália. O eucalipto foi introduzido em nossas paisagens há muito tempo, obedecendo a uma mentalidade imediatista e tosca, segundo a qual, não temos espécies nativas com o mesmo valor econômico. Conhecido em outras partes do mundo como a “árvore egoísta”, por ser um voraz consumidor de recursos hídricos, no Brasil ele é plantado em grandes áreas, destruindo ecossistemas inteiros e esgotando  incontáveis cursos d’água. Quem observa o que tem acontecido com arroios e nascentes por esse interior afora, sabe bem do que estou falando.

De-Curralinhos-para-BR-101-Março-2014

Toda essa planície é emoldurada até onde a vista alcança, por uma mancha de um verde profundo, a Serra Geral. Ela é resultado de um tempo remotíssimo. Foi gerada por meio de sucessivas erupções vulcânicas que modelaram grande parte das regiões sudeste e sul do Brasil. Da estrada que liga Curralinhos à BR 101, admiro a imagem que a serra faz em conjunto com as palmeiras situadas em primeiro plano. É uma paisagem encantadora e grandiosa. Sinto uma calma quase estranha aqui. Há esse silêncio, mas há também essa larga estrada, que parece preparar um futuro não mais tão silencioso. Sinto então uma antecipada e inquietante nostalgia por esse lugar.

J. H.

Imagens postadas (de cima para baixo): Igreja de Curralinhos (apontamento de campo – Março de 2014 );  Lagoa do Sombrio (apontamento de campo – Fevereiro de 2014; Margens da Lagoa do Sombrio (apontamentos de campo – Março de 2014); Entre a BR 101 e Currallinhos (apontamento de campo – Março de 2014). Jorge Herrman

05 de Fevereiro de 2013

180.-MORRO-DOS-MACACOS-II-A-Figueira1

À margem da Lagoa do Sombrio, a uma pequena distância do Rio Mampituba em Santa Catarina, há uma jóia rara. Um morro peludo e viçoso, de um verde muito escuro, chama a atenção: o Morro dos Macacos. É uma área privada, que por sabedoria dos proprietários, tornou-se área de preservação. Seu nome não é obra do acaso. Abriga uma grande população de micos-prego, que sem muita cerimônia, aproximam-se dos visitantes para receber …ou roubar alimentos. É um contingente de uns 150 indivíduos, segundo o seu Pedro, o proprietário, que recebe todos visitantes sempre com muita simpatia. Seu Pedro é um daqueles personagens que ajudam a conferir uma aura especial a um lugar. Nas suas palavras, o passado é um caudal interminável de assuntos. A cada visitante que lhe dá uma oportunidade, ele narra a história daquele bonito reduto. Seu Pedro é da sétima geração da família formada por Manoel Rodrigues, o primeiro proprietário dessas terras, que conforme conta ele, originalmente abrangiam 18 quilômetros de frente para o mar, por 54 quilômetros de fundo, até a serra. A casa desse ancestral ficava na margem do arroio que hoje é conhecido por Arroio Rodrigues, a uns 10 quilômetros dali, em direção ao Passo de Torres. No pé do Morro dos Macacos, ele mantinha um engenho, movido pela força involuntária de seus 70 escravos.

Nesta visita, segui pela segunda vez a trilha que contorna o morro por dentro do mato. Dessa vez, com mais calma, pude comprovar a pouca estatura da maioria das árvores. Parece ser uma mata secundária, muito provavelmente em consequência da presença do tal engenho, ali no pé do morro. Num primeiro trecho, a trilha acompanha  a margem da lagoa, permitindo em dois pontos, uma aproximação até as águas. A partir dali, ela inflete para a esquerda, acompanhando o morro numa subida cuja culminância é uma imponente figueira. Ali, o seu Pedro sempre faz uma parada para contar algumas histórias, durante as trilhas educativas que faz. Esta árvore parece emanar muita força. É de longe a maior e mais antiga de todas as que eu vi nesse lugar. Nas duas vezes em que a vi, fiquei com a estranha sensação de que se trata do centro de toda a paisagem, e num exercício de imaginação, me permito conjecturar que ela seja o coração desse lugar.

Nas imediações da figueira, vi um pequeno bando de macacos, um pouco mais arredio do que o grupo que literalmente assedia os visitantes à procura de alimento, do outro lado do morro, às margens da lagoa. Ali, na encosta, como que espiando a imensidão da Lagoa do Sombrio que se esparrama no rumo norte, há uma ruína do que talvez seja a mais antiga casa desta região. É toda erguida com grandes pedras encaixadas, em grossas paredes, com altas aberturas. Não parece ter sido uma grande casa, mas sua robustez impressiona. Sua antiguidade remete a muitas imagens, muitas conjecturas, sobre um tempo que hoje nos parece pura ficção.

Ver esta mancha de natureza remanescente  é uma surpresa reconfortante, e simultaneamente faz o olhar buscar semelhanças no entorno. Mas o contraste é intenso. Não há nada que se pareça com aquele morro ali. Ele é uma espécie de ilha, mas que talvez estaja indicando o que era o ambiente no seu entorno. A paisagem de hoje é feita de descontinuidades. A árvore dominante por aqui é o eucalipto, o que inevitavelmente implica em dizer que o repertório genético da flora nativa está bastante comprometido. Quase não vi capões nativos nas redondezas.

Imagem postada: “Morro dos Macacos II – A Figueira”  (2013 – aquarela – Jorge Herrmann). Disponível para aquisição na loja virtual deste site.