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Redenção

REDENÇÃO

Finitudes e Permanência

02 de Junho de 2014

Há cerca de 20 anos, me deparei com uma antiga foto do Parque da Redenção, que em
nada parecia com a Redenção que eu conhecia. A imagem mostrava um grande descampado,
cercado pela ainda pequena Porto Alegre. Nada ali indicava o que este espaço viria a se
tornar. Aquele paradoxo passou a ocupar meu imaginário: como podia esse lugar ter se
transformado tanto? Conduzido por esta curiosidade, fui me deparando com um imenso
acervo de imagens que falavam de um lugar cheio de história, um lugar repleto de gente,
imersa em atmosferas arcaicas mas estranhamente familiares.
Há cerca de 20 anos, me deparei com uma antiga foto do Parque da Redenção, que em nada parecia com a Redenção que eu conhecia. A imagem mostrava um grande descampado, cercado pela ainda pequena Porto Alegre. Nada ali indicava o que este espaço viria a se tornar. Aquele paradoxo passou a ocupar meu imaginário: como podia esse lugar ter se transformado tanto? Conduzido por esta curiosidade, fui me deparando com um imenso acervo de imagens que falavam de um lugar cheio de história, um lugar repleto de gente, imersa em atmosferas arcaicas mas estranhamente familiares.

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Isto foi me convencendo da importância de realizar uma pesquisa sistemática deste verdadeiro manancial iconográfico que insistia em cruzar meu caminho. Em 2011, com o apoio da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, e com a preciosa orientação do professor Rualdo Menegat, pude afinal mergulhar nestas águas. Por mais de dois anos desenhei a Redenção, seu cotidiano, seus recantos, seus personagens. E seu passado. Movido pelo fascínio por aquelas velhas fotos, passei a fazer releituras em desenho e aquarela. Com o tempo, fui vendo que esse recurso me permitia um olhar diferenciado, uma espécie de “olhar com as mãos”, que revelava detalhes antes simplesmente imperceptíveis.

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Quem eram essas pessoas? Em que universo transitavam seus pensamentos? Que futuro imaginavam? Nos imaginavam? Me intrometendo na intimidade daqueles remotos momentos, me comovi com a óbvia mas difícil constatação, de que somos parte do mesmo fluxo histórico que essas pessoas. E que a despeito de todos nossos desejos, expectativas e ilusões, temos um compromisso com nossa finitude, exatamente como elas. E me comovi por toda fragilidade dessas biografias esquecidas, trazidas à tona apenas pelo exercício da imaginação.

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Em meio a essas divagações, uma constatação foi ganhando corpo. Dizia respeito ao lugar: o território por onde essas personagens transitaram, onde a fugacidade de suas vidas ficou cristalizada. E não sei se por mero desejo de ver transcendência em tudo isso, concluí que lugares como a Redenção possuem poder, uma espécie de poder surgido das pessoas, desse frágil tecido tramado pelo conjunto de suas expectativas e ilusões. E afinal, entendi que essas vidas, interagindo com as forças da natureza, acabam impregnando um lugar de sentido. Tudo isso acontece a seu tempo. Sinto então uma imensa necessidade de lentidão.

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A fila anda… Essa finitude, tantas vezes negada, que tanto nos assusta, é nossa natureza mais radical, nosso tempo tão humano, tão irremediavelmente condicionado a um outro tempo, histórico, por sua vez condicionado a um outro tempo, biológico, que por sua vez…

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Por todos lados, vejo lugares sendo rapidamente desfigurados. Fica cada vez mais evidente que onde os interesses são mais imediatistas e mesquinhos, é que ocorrem as transformações mais profundas e definitivas nas paisagens. Por que tanta pressa em alterar o que levou tanto tempo para ser o que é? Que sentido faz arrancar a identidade dos lugares, se em seguida seremos todos apenas fotos velhas? A fila anda, e seria de bom tom deixar para os que vem logo atrás, a chance de viver em lugares dotados de identidade. Para que o mundo siga sendo um território de encontros e aprendizados. O tempo, quando lhe damos ….tempo, tece tudo com sabedoria.

* Agradeço ao professor Rualdo Menegat, por sua lúcida e dedicada orientação, ao Museu da UFRGS, por ter acolhido o projeto “Confluências – Uma Crônica Visual da Redenção”, ao professor Cirio Simon pela generosidade em compartilhar seu conhecimento e sabedoria e a Ana Luiza Fitz por seu apoio sempre incondicional.

Todas imagens postadas, disponíveis para aquisição. Contatos: arte@jorgeherrmann.com ou (51) 9240.7038.

Imagens pela ordem de apresentação: POPULARES DE 1901 – aquarela – 30×21 cm de R$ 360,00 por R$ 288,00; AS MENINAS DE 1901 – aquarela – 21×30 cm (obra vendida); DOMINGO NO PARQUE III – acrílica sobre eucatex – 40×30 cm (R$ 450,00); PASSEIO ESCOLAR – acrílica sobre eucatex – 40×32 cm de R$ 420,00 por R$ 366,00; DOMINGO NO PARQUE II – aquarela sobre eucatex – 30×40 cm (R$ 490,00).  (2012/13). Jorge Herrman




REFLEXÕES

20 de Maio de 2013

fragmentos narrativos do projeto “Confluências – Uma Crônica Visual da Redenção”

Esta é uma pequena e paradoxal viagem por um território cotidiano. Ela pretende desvendar o que por sua própria natureza, o cotidiano não permite. Meu veículo para essa jornada é o desenho. Tudo iniciou  graças a uma velha fotografia do início do século passado. Essa foto mostra um Parque da Redenção completamente vazio, sem árvores, algo absolutamente diferente do que eu imaginava. Como foi que este lugar se transformou tanto? Como se tornou esse território imantado, que atrai gente de tantos lugares, de tantas origens? Com o passar dos anos, na angústia de compreender um pouco melhor a profunda mudança que vinha acontecendo com a fisionomia de Porto Alegre, passei a olhar mais atentamente para a Redenção, pois percebi nela um importante contraponto para a crescente velocidade com que a cidade passou a operar.

Este é um relato de surpresas e encantamentos. Sua linguagem é visual. É o testemunho de um indivíduo que se propõe a olhar para seu espaço cotidiano como se fosse um visitante.

A VÁRZEA

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Antes de iniciar minhas visitas ao Parque para desenhar, faço uma incursão pela sua iconografia antiga, com a intenção de verter algumas imagens para o desenho. Me proponho uma espécie de “leitura com as mãos”, o que espero, me permitirá perceber o que ocultam estas imagens. Um mapa de 1888, atribuído a João Cândido Jacques, revela uma península densamente povoada, que estende seus braços em todas as direções, exceto uma: a Várzea da Redenção. Ela contém o crescimento da jovem cidade. Curiosamente, como que imitando Porto Alegre, ela parece reproduzir a forma ligeiramente triangular de seu núcleo central, situado na península. É um território “vazio”, um recipiente que guarda um mundo de possibilidades que até então não haviam sido pensadas.

A GRAVURA DE 1839

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Não sei se é a imagem mais antiga que se tem da Redenção, mas se não for, já é no mínimo curioso observá-la. Uma gravura creditada a Luiz Pereira Dias, mestre pedreiro, ou segundo outra fonte, topógrafo, revela a face leste da cidade No descampado, vejo caminhos aqui e ali, se entrelaçando e revelando um trânsito incipiente. Ao fundo da imagem, podem ser vistos os muros que protegiam a capital. Olhando com atenção, é possível observar que o autor fez um rebatimento de planos, com a intenção de permitir a visualização do maior número possível de elementos da paisagem. É uma visão impossível, mas muito reveladora dos limites da pequena capital.

Quando o século XIX se aproximava do final, a cidade estendia seus braços sobre a área, reduzindo suas margens. Lá por 1875, é construído nas imediações da atual Faculdade de Medicina, um equipamento que aos olhos de hoje, é no mínimo estranho: uma arena de touros. Vinte e seis anos depois, onde hoje está a Faculdade de Arquitetura, é inaugurado outro curioso equipamento: um velódromo, que por muitos anos sediou importantes competições ciclísticas.

1901

Algumas fotos datadas de 1901 passam a me chamar atenção. Mostram o intenso movimento de um grande acontecimento. Num quarteirão inteiro de caprichosos pavilhões no extremo norte da várzea da Redenção acontece a grande “Exposição de Produtos Riograndenses”. A afluência do público parece intensa. Fico particularmente encantado com imagens que mostram as pessoas frequentando a exposição, e me lanço a uma série de desenhos que procuram captar um pouco dessa remota atmosfera. Que mundo tão distante esse, mas que de certa forma parece tão próximo… Há algo de insondável neste passado, com seus diálogos, expectativas, motivações. Como saber o que conversavam estas pessoas? Que futuro habitava suas imaginações? Divago e flutuo na ilusão de que meus desenhos estejam tocando um pouco dessas vidas perdidas no tempo.

O Roseiral

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Este é o local onde a Redenção que hoje conhecemos começou, por assim dizer. Criado em 1927, é parte do que na época denominou-se Parque Paulo Gama. Trata-se da primeira demonstração de que a cidade já pensa na grande várzea como um lugar destinado ao descanso e ao lazer. Tem um interessante ajardinamento, todo concêntrico, procurando reproduzir uma grande rosácea. A fonte que ocupa o centro da pracinha chama-se “O Menino da Cornucópia”. Na época de minha visita, não havia menino nem cornucópia. Depois de um cuidadoso trabalho de restauração, a fonte agora está completa e recuperada.

O Minizôo

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Na mesma época, bem ao lado do Roseiral, a cidade ganhou um zoológico, que hoje não está mais lá. A grande quantidade de carcarás me atrai a atenção. Faço um desenho que exclui a tela do primeiro plano, o que me coloca simbolicamente junto com um deles dentro da jaula. É um exercício que eu convidaria a maioria das pessoas a fazer. No limite do zôo com o Roseiral, revejo uma pichação tão sugestiva quanto verdadeira: “Somos animais. Não somos brinquedos” Alguém duvidaria disso?

O Lago

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Numa certa tarde de outono, o sol faz uma linda luz que se esparrama em torno do grande lago que ocupa boa parte da face oeste do Parque, o lago dos  pedalinhos. Tudo à sua volta é sereno, lento, parecendo não querer sair dali. Na ilha que fica próxima à margem leste do lago, uma menininha brinca, ocupada em transportar porções de terra num baldinho, de um lado para outro. É encantadora em sua concentração infantil. Sua presença parece banhar o recanto de paz. Seu pai está ali, olhando as águas, absorto, ocupado sabe-se lá com que pensamentos de adulto, talvez buscando nas calmas águas do antigo lago, a serenidade infantil.

1935

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O lago dos pedalinhos é artificial. Foi criado para a Exposição do Centenário Farroupilha em 1935, um gigantesco evento responsável pela transformação da Redenção em um verdadeiro canteiro de obras. As imagens deste acontecimento são bem conhecidas e sempre me intrigaram. Qual a sua lógica? O que explicaria aquela verdadeira cidade dentro do parque? Os testemunhos dão conta de uma ostentação de poder jamais vista até então… É na verdade, uma demonstração de poder e pujança da economia gaúcha, num cenário de intensas disputas políticas.

Mas a Exposição Farroupilha dura apenas 4 meses. Seus pavilhões, o cassino, os restaurantes, enfim, toda sua pompa e circunstância, ao cabo de 4 anos vai abaixo, para dar lugar aos recantos que hoje conhecemos. Desta estranha lógica, acabam sobrevivendo apenas algumas edificações nas proximidades do lago, a fonte luminosa e o Instituto de Educação, que na época, abrigou uma grande exposição de arte. No entanto, a configuração geral criada para a Exposição de 1935, acaba por demarcar as linhas gerais do parque que hoje conhecemos, organizando-o a partir da criação dos eixos central e transversal, que se cruzam onde está localizada a fonte luminosa.

A Fonte Luminosa

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A Fonte Luminosa foi importada de Nova Iorque, especialmente para a exposição de 1935. Possuía 35 possantes projetores e produzia num espaço de 6 minutos, 96 diferentes efeitos de luz e água. Foi a mais cara construção de toda exposição. Hoje, mais tímida, ela não produz tantos efeitos, mas os freqüentadores atuais do parque não parecem se preocupar muito com isso. Sob certo aspecto, talvez tenhamos nos tornado mais simples. Hoje, a fonte é o ponto de encontro de um imenso contingente humano. Sua situação solar privilegiada e sua circularidade parecem imantar as pessoas.

Numa tarde de desenho, custo a me dar conta de que para os lados da avenida João Pessoa há um novo componente na paisagem. Um imenso prédio se ergue acima das copas das árvores, introduzindo uma lógica até então inédita para o olhar dos frequentadores do parque. Lembro então, que este prédio foi o pivô de uma grande polêmica que tomou conta da Cidade Baixa. A sua imagem rígida, impondo-se à suavidade dos elementos naturais do parque, dá bem uma dimensão das razões que motivaram aqueles protestos.

Estádio Ramiro Souto

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Depois da delirante experiência de 1935, a Redenção é repensada. Os grandes pavilhões dão lugar a novos e curiosos equipamentos, desta vez concebidos para perdurar. O primeiro deles é o Estádio Ramiro Souto, praça de esportes inicialmente vinculada à Escola de Cadetes. Procuro fazer alguns desenhos da meninada que recebe instruções de arremesso de dardo. O palco é o campo de futebol, mas os protagonistas da cena exercitam-se num dos esportes menos praticados do planeta.

Recanto Oriental

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Em 1941, mais seis espaços são distribuídos por toda área. São simulacros de arquiteturas e paisagens do mundo dito civilizado. Representam um notável esforço no sentido de tornarem a Redenção um lugar de acolhimento. O mais interessante de todos eles é o Recanto Oriental. É o reduto mais propício ao devaneio e à meditação. Nele vive o gordo Buda, que parece exercer uma magia especial sobre os visitantes. É uma espécie de foco irradiador do lugar. Mora num pequeno pagode, às margens do lago, que dizem, tinha um formato de dragão.

Contudo, são poucos os visitantes que permanecem por mais de quinze minutos. Vejo seis turistas que passam, parando num átimo de tempo apenas para capturar algumas imagens na máquina fotográfica. Fotografam aquilo que não se dispõem a olhar com mais atenção. Em casa, muito provavelmente também não terão  tempo para dedicar a cada imagem captada.

Recanto Solar

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O Recanto Solar, ali pertinho, é o mais despojado de todos. Trata-se de uma mandala cujos pontos cardeais são marcados por grandes esferas de alvenaria. Estão nas margens de uma área circular vazia, cujo piso representa a rosa dos ventos. Como o seu nome sugere, esse recanto deveria ter um relógio solar. Mas não tem… De qualquer forma, o espaço acaba funcionando como uma espécie de bússola do parque.

Recanto Europeu

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O Recanto Europeu apresenta dois grupos de colunas que lhe conferem uma disposição diferente dos outros. Sua disposição, num primeiro momento, é um pouco difícil de assimilar. As linhas de colunas geram inevitáveis pontos de fuga, num estranho convite a dirigir o olhar para fora de seus limites. De uma imagem da época de sua inauguração, faço um desenho a grafite. É uma antiga vista para a avenida Osvaldo Aranha, hoje impossível devido às grandes e belas árvores que tomaram conta do parque.

Durante as três horas que permaneço ali, sempre em algum momento há um casal ocupando a parte central da linha principal colunas. Esta é, aliás, uma imagem corriqueira em toda a Redenção, mas aqui talvez mais do que em qualquer outro lugar do Parque.

Chafariz de Ferro

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Dia frio, enferrujado, ameaça chover. Tenho à minha frente o grande chafariz de ferro. Ele é complexo, um desafio e tanto para o desenho. É encimado por três figuras infantis, em poses que sugerem uma certa sensualidade, o que as torna um pouco esquisitas. No entanto são muito bem feitas. Abaixo delas, uma grande bandeja circular é adornada por dois grupos alternados de cabeças femininas e masculinas. O grupo, masculino tem a feição extremamente agressiva, enquanto o feminino parece mais sereno. Originalmente, o Chafariz de Ferro ficava ao lado do Mercado Público. Foi trazido para a Redenção logo depois da grande enchente de 1941. Sua pracinha é um dos espaços mais bem preservados da Redenção.

Recanto Alpino

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Quando a avenida Protásio Alves Aranha foi alargada, grande quantidade de terra foi trazida das imediações do Hospital Petrópolis. Esta terra foi utilizada para erguer uma pequena colina nas proximidades do lago, o Recanto Alpino. Ele está rodeado de grandes árvores, e é todo adornado por simulações de galhos, feitos de cimento. Não é um lugar muito seguro, e mesmo à luz do dia não costuma ser muito frequentado. Alguns lugares da Redenção não foram plenamente adotados pela população. Apesar de tudo, é um lindo lugarzinho.

O Espelho d’Água

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Em 1942, o eixo central do parque recebe uma piscina. Mas em 1967, uma criança morre afogada, provocando a sua transformação no Espelho d’Água que hoje conhecemos. Dali é possível ter-se uma ampla vista para o sul, onde o Morro da Polícia domina a paisagem e impõe um limite natural a tudo aqui embaixo. Durante uma bela tarde de inverno, passo um período observando o espelho d’água e suas imediações. Depois de muitas semanas de chuva quase ininterrupta, a população aproveita e sai para lagartear. É uma cena bucólica e tranquilizante.

Em 1952, surge o parquinho de diversões, com uma atração especial que é sensação da meninada: os carrinhos elétricos fabricados pela Austin. E o parque vai seguindo sua transformação, abrigando outros equipamentos ao sabor dos ritmos de sua cidade.

Orquidário

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O Orquidário Municipal é inaugurado um ano depois, ao lado do lago. Hoje é um recanto rodeado por rica vegetação, um espaço de atmosfera especial. Diante do viveiro, inicio o desenho de uma grande orquídea que ocupa todo o lado direito da entrada. Um senhor me informa que se trata da  Wanda, Me explica que é o gênero dessa planta terrícola, muito adaptada a solos pedregosos. O homem chama-se Luis Seixas, administrador do orquidário. Vai falando sobre as orquídeas sem notar que interrompe o meu desenho. Mas é uma interrupção agradável. Demonstra entusiasmo pelo seu trabalho, e isso é sempre muito bom de testemunhar.

Na entrada do orquidário, faço o desenho de um grande e gordo gato. Chama-se “Garçon” e parece guardar a entrada. É um representante da verdadeira legião de gatos que habita o Parque.

Araújo Vianna

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Em 1961, auditório Araújo Vianna é transferido para a Redenção. É o último dos grandes equipamentos que definiram a Redenção que hoje conhecemos. É meio dia . O largo entre a avenida Osvaldo Aranha e o auditório está repleto de gente, que aproveita o solzinho de inverno durante o intervalo do trabalho. Um sujeito chega de bicicleta, senta-se num banco, fecha os olhos e balbucia alguma coisa só para si. Ao fundo, vejo o Araújo, cercado por um  tapume colorido que narra em pintura a sua história. É uma história truncada, cheia de altos e baixos. Por muitos anos, ele abrigou importantes manifestações culturais e políticas da cidade, até que chega um período em que seu estado de deterioração o torna inviável. Meses depois de minha visita, concluída a reforma, a população se depara com um Araújo Vianna cercado, o que para muitos, sinaliza uma preocupante mudança.

Monumento ao Expedicionário

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No extremo norte do parque, ao lado do Roseiral, há uma pracinha que abriga um magnífico gaúcho de bronze, doado pelos uruguaios na década de 1930. Tem uma altivez que parece celebrar sua antiguidade Sua naturalidade contrasta de maneira impressionante com as figuras do outro lado do Parque, vinculadas ao Monumento ao Expedicionário. Ali, estátuas, bustos e relevos apresentam uma rigidez e idealização que em nada parecem combinar com a vida que se move à sua volta.

Minha atenção é voltada para uma imagem muito curiosa. Recostadas nas bases dos bustos de bronze que se alinham diante do Monumento ao Expedicionário, há três pessoas. Estão rigorosamente na mesma atitude indolente, contrastando maravilhosamente com a sisudez das figuras de bronze. Impossível imaginar Marechal Deodoro ou o Duque de Caxias nesta mesma atitude…

Na tarde de inverno, a generosidade do sol proporciona um belíssimo espetáculo. Vinda do poente, uma intensa luz ilumina os arcos do monumento, produzindo uma longa sombra. Lá ao longe, emoldurada pelos arcos, está a cidade, coberta por uma atmosfera quase irreal.

Estátuas e Monumentos

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As estátuas e monumentos da Redenção compõem um capítulo à parte. Muitos parecem esquecidos, anacrônicos, talvez incômodos. Grande parte das estátuas não tem identificação, outras sequer possuem vestígios do que possam ter sido, restando apenas a carcaça. Tudo isso revela a ação de um novo tempo que não sabe o que fazer de seu passado. São solenes esqueletos, homenagens que hoje recebem dos pichadores, um novo enunciado, uma segunda pele, talvez a tentativa de um diálogo já impossível. Às estátuas sobreviventes resta uma solidão que só parece se acentuar com a vida que se move incessante à sua volta.

Dedico alguns desenhos a uma dessas carcaças Fica pertinho da estátua do gaúcho oriental. Trata-se de uma estrutura robusta, encimada por um grande círculo, que tem ascendência sobre uma série de pesados volumes retangulares. A única informação minimamente legível ali, é uma pichação. Lúgubre e instigante.

As Pessoas

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Ao longo de todo meu envolvimento com a Redenção, um tema se impõe, insistente, superando todos os outros. Meu interesse inicial pelos recantos e pela geografia do Parque, acaba sendo suplantado por este outro tema, pleno de significados: as pessoas. Nada mais natural. Elas são a maior riqueza deste território. São sua alma e razão de ser. Para entender a Redenção é preciso entender as pessoas, aceitar o que não nos é familiar, o que nos causa estranhamento, compreender que também fazemos parte do seu mosaico humano, contraditório, e talvez por isso mesmo, rico.

A Redenção demonstra uma maravilhosa vocação para o acolhimento. Acolhe a todos, indistintamente, Acolhe também os desvalidos, que dela se servem como casa e dormitório. Estes personagens foram absorvidos por sua paisagem e dela fizeram parte desde sempre. Onde, em Porto Alegre, haveria melhor pouso? Que importa o medo e o preconceito de uns, diante da necessidade extrema daqueles que não tem onde morar? A Redenção sabe das razões de cada um.

Quase sempre sem o saber, fazemos parte desta paisagem. Ali, nos entregamos ao devaneio, à pausa, à lentidão. Ali, podemos simplesmente estar, sem expectativas, pequenos diante de um fluxo vivo que nos é muito anterior, e que se movimenta por caminhos que desconhecemos.

A Redenção também segue exercendo sua mais antiga vocação: servir de caminho. Seus muitos caminhos oferecem passagem ou passeio. Para alguns, eles representam a oportunidade de exercitar o corpo. Para outros, a chance de mover-se a uma velocidade já impossível na grande cidade que se agita à sua volta. Aqui, a lentidão continua sendo uma virtude.

As Feiras

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Outra antiga vocação da Redenção é a prática das feiras. Aqui, a cada sete dias Porto Alegre tem a renovada chance de se reencontrar, de perceber-se em suas múltiplas facetas. Nos sábados a Redenção recebe a Feira Ecológica, uma realidade que se consolidou e inaugurou uma prática que se disseminou por toda cidade. O estreito corredor de barracas é fluxo e cenário, onde gesta-se uma alternativa de viver em meio ao tumulto da nossa agigantada cidade.

No domingo é a vez do Brique. Tudo o que se gesta durante a semana, aflora nesse dia. Ele é uma espécie de tecido vivo que reveste a face sul do parque. Próximo à João Pessoa, onde estão os antiquários, certo dia descubro uma situação magnífica para o desenho. O grupo de árvores que ladeia a alameda da José Bonifácio, oferece um belo primeiro plano, numa sucessão de volumes que conduz o olhar para o Brique, que se desdobra ao fundo. Visto dali, o Brique se transforma numa rica e inquieta linha horizontal.

Todo trecho inicial, a partir da Osvaldo Aranha, está ocupado pelas tendas dos caingangues. Só no final deste trecho começam a aparecer os Mbyás Guarani. O contraste entre os dois grupos é muito evidente e revelador de seus modos de ser. Para os caingangues, são necessárias grandes tendas, para os guaranis, o chão é suficiente.

Enquanto desenho, uma mulher para ao meu lado e comenta que também é desenhista. É uma moradora de rua, em condições bastante precárias. Pede para desenhar. Passo a prancheta, curioso. E o que vejo surgir no papel me impressiona. Sento no cordão da calçada ao seu lado. As pessoas passam, olhando para a cena com grande curiosidade. E ela, sentindo aquela pequenina notoriedade, sorri.

O Museu

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Quando tudo parece ter se encaminhado para uma conclusão, me deparo com o banco de imagens do Museu da UFRGS, o que descortina um novo cenário, repleto de novas possibilidades. A apreciação dessas antigas imagens, muitas das quais eu não conhecia, inaugura então uma nova fase do projeto. É este o momento atual, no qual estou envolvido com novas releituras de imagens do passado, um estudo feito mais com as mãos do que com a mente. E sigo respirando estas atmosferas estranhas ao meu tempo, redimensionando meu conhecimento, vislumbrando as lacunas de meu conhecimento. É o início de uma nova viagem. Uma viagem por um território fascinante, o território onde afinal, transitam minhas provisórias ignorâncias.