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Canela

Um Parque

reflexão sobre lições mal aprendidas

Junho de 2015

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Faz muito, muito tempo, ouvi pela primeira vez uma pessoa utilizar o termo eco-chato. Era algo claramente ofensivo, dirigido àqueles que de alguma forma interferiam no senso comum. Para a maioria das pessoas, o mundo até então era um mero cenário onde a sociedade industrial poderia desfilar suas conquistas. Não havia limites para que a engenhosidade humana interferisse num mundo que parecia ter nascido imperfeito. Os eco-chatos viam limites evidentes nessa visão. Sinalizavam para outra realidade, na qual, diziam, estaria a verdadeira essência da vida humana. Isto soava como um sacrilégio para os amantes do progresso ilimitado. E a crença no crescimento incessante prosperou, empurrando pessoas e temas incômodos para baixo do tapete. Esta opção acabou apagando muitos vestígios de paisagens, culturas e modos de vida que os eco-chatos tanto queriam mostrar. E três décadas passaram…

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Hoje, como todos sabem, vivemos num planeta exaurido. Contudo, para alguns, é muito chato admitir isso, mesmo que agora já sejam cotidianos os sinais de que algo deu errado. Estes sinais revelam, para quem quiser ver, que o preconceito tão arraigado contra os eco-chatos era apenas uma inversão de valores. Os amantes do progresso ilimitado eram, no fim das contas, as manifestações de um mundo atrasado, linear e reducionista, que nunca soube dialogar com a natureza refinada deste planeta. Sua crença na tecnologia pesada e no conforto infinito produziu cenários endurecidos, retilíneos e tensos, nos quais a natureza não passa de um adorno.

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Agora, um gigantesco vazio espiritual se estende por este mundo que insistiu em se afastar da Natureza. E como se estivesse em rota de fuga, uma elite assustada busca proteção em condomínios fechados cada vez mais exuberantes, insistindo no mesmo erro. Por toda parte pipocam empreendimentos que cobrem paisagens e rompem horizontes, reproduzindo a mesma lógica. Do lado de fora destes paraísos, seus frutos amargos reproduzem-se exatamente com a mesma exuberância.

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Em Canela, Rio Grande do Sul, há um bonito espaço público, um bem coletivo chamado Parque do Palácio das Hortênsias. Trata-se de uma área disponível para o lazer sadio e simples, no contato com uma paisagem que fala. O Parque das Hortênsias é um marco na paisagem serrana, pois demonstra com clareza a transição entre os campos de cima da serra e o planalto. Sua fisionomia é essencial para que as pessoas se envolvam com a paisagem natural do município. No entanto, o Parque das Hortênsias está em situação precária. Equipamentos destruídos, acúmulo de lixo, ausência de jardinagem e sinalização, formam um cenário que passa a desconfortável sensação de ausência do poder público. No Parque das Hortênsias, nitidamente, está se perdendo a preciosa oportunidade de inverter a espiral de loucura que assoma no horizonte.

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O eco-chato que escreve estas linhas deseja agora fazer umas perguntas, obviamente chatas. Porque é necessário que a riqueza continue acumulando riquezas, se isso parece ser motivo para infelicidade? Porque não romper com esse círculo vicioso e iniciar um cíclo virtuoso, que faça circular o dinheiro coagulado nas mãos de alguns? O que custaria para o poder público investir em bens coletivos que trazem saúde social? O que custaria para os ricos fazerem o mesmo? E que tal deixar algumas paisagens em paz?

A natureza tem muitas lições à disposição. A maior delas ensina que somos interdependentes. Todos nós, queiramos ou não. Conviver, portanto, é fundamental. Os muros e cercas elétricas não tem nada a nos ensinar.

J.H.

Todas imagens postadas, disponíveis para aquisição. Contatos: arte@jorgeherrmann.com ou (51) 9240.7038.

Imagens: Releituras de apontamentos de campo no Parque das Hortênsias (Maio de 2015 – Jorge Herrmann)


O Bosque de Canela

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21 de Outubro de 2013

A velha sapopema se destaca em meio à floresta. É capaz de abrigar até quatro adultos de pé em seu “útero”, uma enorme cavidade que ocupa quase toda a base do tronco. Esta grande árvore é remanescente de uma floresta primária que foi parcialmente derrubada para a extração do pinheiro e outras madeiras de lei. Foi preservada sabe-se lá por que razão, assim como suas duas irmãs, um pouco mais jovens. Estou no interior do Bosque de Canela, uma Reserva de Proteção do Patrimônio Natural, área de preservaçãp mantida pela Assecan (Associação Ecológica Canela), graças à abnegação do ambientalista Cilon Estivalet e seus pares. Vim a Canela com uma missão específica: trazer às crianças das escolas próximas à reserva, um momento  de experimentação do desenho como forma de manifestar sua percepção da Natureza.

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Cilon é um incansável personagem na tarefa de levar às pessoas uma nova possibilidade de percepção da vida e da paisagem. Criou esta reserva, e ao longo de mais de 20 anos, tornou esse lugar uma referência para a educação ambiental da região, organizando trilhas, vivências e inesquecíveis experiências de contato com o mundo natural. Com alegria, participo do projeto “Bosque de Canela na Escola”, criado por Cilon, e encontro crianças curiosas e vivazes, que respondem com inteligência às minhas provocações. Minha preocupação é mostrar como um lugar é capaz de guardar as marcas das ações do ser humano. E as crianças dão mostras de compreender perfeitamente o que quero dizer.

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Aqui nesta região, está em curso uma profunda alteração da paisagem, fruto de ações sem reflexão, sem critério, e praticamente sem controle. O bosque era antes mais silencioso. Hoje, de dentro do mato, já é possível ouvir um ronco surdo e incessante. É a “pequena” Canela, cheia de automóveis. Aqui, como em outros lugares, a face ruim da civilização avança, e envia alguns sinais inquietantes: o ruidoso ritmo dos “bate-estacas”, o lixo e… caçadores. Estes, costumam invadir a área nos dias em que Cilon está ausente. É gente de “fino trato”, que costuma reagir de forma, digamos, muito pouco educada, quando flagrados. Só costumam respeitar a Patrulha Ambiental, que quando necessário, sabe usar métodos persuasivos, como a prisão em flagrante. Por aqui há bugios, cotias, veados do mato, e uma rica variedade de aves. Vi uma cotia pastando no jardim, ao lado da casa sede O veado do mato, que era freqüente por aqui, ultimamente não tem sido visto, o que é motivo de preocupação.

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Aqui e ali, a mata renascida revela grandes pinheiros, grápias, canelas e outras espécies nativas de porte, entre elas, é claro, as velhas sapopemas. Estas sapopemas, são  árvores seculares, que testemunharam  acontecimentos obscuros. A seus pés, se desenrolou um passado humano cheio de conflitos. Por aqui transitou gente do mato. Essa gente vivia em casas semi-subterrâneas, que deixaram profundas cicatrizes circulares na terra. Aos pés dessas árvores, os descendentes dessa gente de pele escura, foram desalojados e dependendo da circunstância, massacrados, por pessoas de pele branca, a quem nada nesse lugar parecia transmitir algum sossego. Este passado ainda permanece pouco esclarecido. Talvez por pouco tempo.

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Vou caminhando dentro do Bosque, parando aqui e ali para desenhar. E vejo que ao longo desses anos todos de convívio com o Cilon, essa floresta tonou-se uma espécie de híbrido. Por toda parte, apresenta sinais de uma suave presença humana. São esculturas, bandeiras, fitas, mensagens em garrafinhas, pequenos labirintos, totens, inscrições e outras singelas intervenções que antes de tudo, procuram dialogar com esse lugar. Dá para dizer que esta é uma floresta que de certa forma, se tornou humana.

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Mas se por aqui há uma floresta que se tornou um pouco humana, também há um homem que se tornou um pouco floresta. É o Zé do Passarinho, nascido há 55 anos na região. Artista, andarilho, observador e pesquisador da imensa diversidade biológica dessas serras, o Zé é capaz de ficar horas dentro do mato, só para captar o som de um passarinho. Que ele inclui em seu arquivo de sons, já com mais de uma centena de pássaros registrados. É um personagem singular. Mergulha no mato que nem bicho, para emergir com novos sons e preciosos detritos do mato, que lhe servirão de matéria prima para seu rústico e belo trabalho de escultor, um verdadeiro fruto humano dessas matas.

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Depois de realizar as oficinas de desenho nas escolas, fiquei divagando sobre os possíveis resultados da educação ambiental. Que frutos ela produzirá, nunca se saberá de antemão. Cada criança é uma mensagem para o futuro, uma garrafa no mar. A que praia chegará? Não tem como saber ao certo. Cabe-nos apenas acompanhá-las com zelo e carinho, até onde nossa vista puder alcançar. De qualquer forma, ao final desta experiência com as crianças de Canela, sou capaz de ao menos avaliar o efeito delas sobre mim. Um dia antes de ir a Canela, experimentei musicar o poema “O Tesouro da Casa Branca”, de Manuel Estivalet, filho de Cilon. É inspirado numa história de Simões Lopes Neto, sobre um cacique que protegia um tesouro na floresta. Ao mostrar a música para as crianças, sua reação me tocou tanto, que resolvemos então gravar a música em estúdio. É uma homenagem aos protetores das nossas verdadeiras riquezas: a mata, os bichos, e as pessoas… Esta música está em meu site, no link “Acervo”.

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No retorno, passo por Gramado e Canela, e me deparo com uma exuberância cada vez mais superlativa, que parece não ter limites. Gramado, em particular, se tornou um verdadeiro conto de fadas, importado de um mundo distante. Mas às margens dessa exuberância, há efeitos colaterais. Uma grande e crescente população marginal gravita em torno desse mundo ideal, povoando outras realidades não tão exuberantes assim. E a paisagem também apresenta os efeitos do crescimento dessas cidades. A subida da serra, que sempre foi motivo de orgulho, hoje está ficando feia, descontínua, cheia rupturas. A cobertura florestal que revestia os morros impressionantes e que lhes dava unidade, está fragmentada por pedreiras, plantações de árvores exóticas e abertura sem cuidado, de novas frentes habitacionais. A paisagem está ficando remendada. Enquanto desço a serra que já foi tão linda, fico pensativo e um pouco triste. Que mundo as crianças herdarão de nós? Estamos insistindo no caminho do crescimento, sem lembrar que crescimento não é necessariamente algo positivo, afinal, como certa vez ouvi José Lutzenberger dizer, coisas ruins também crescem… Teremos afinal, o direito de privar as crianças das belezas que não criamos? J.H.

Imagens postadas (por ordem de leitura): Sapopema (2013); Bosque (2008); Bromélia (2013); Tótem do Banhado (2013); Obra de Zé do Passarinho (2013); Bosque (2008); A Casa Branca do Bosque (2013), apontamentos de campo e releituras ( Jorge Herrmann)

As “Crônicas da Paisagem”são contribuições de um artista, no sentido de chamar a atenção para o mundo que se descortina muito além de nossas cidades. Minha preocupação, assim como a de tantas outras pessoas, é a preservação das paisagens com identidade, capazes de amenizar, e quem sabe, nos ajudar a reverter a crise ambiental da qual todos somos responsáveis.

Para receber estas crônicas em seu e-mail, solicite para arte@jorgeherrmann.com