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Delta do Jacuí

Reflexões

19 de Fevereiro de 2013

baseado em texto originalmente escrito em 2004

43.-A-CASINHA-DA-MARIA-CONGA

Em 2004 recebi duas encomendas de pinturas do Delta do Jacuí. Para realizá-las, adotei um método que me proporcionou uma experiência inesquecível. Não quis me limitar a alguma fotografia já existente, tirada por outra pessoa, pois isso não teria a força da experiência vivida, não conferiria à imagem a energia do testemunho pessoal. Organizei então três viagens pelo Delta em busca de um tema, a bordo de barquinhos pesqueiros. Nelas, levei queridos amigos, que assim como eu, puderam também pela primeira vez apreciar uma paisagem conhecida, mas a partir de um ponto de vista totalmente novo.

As excursões partiram da Ilha da Pintada, local que abriga ainda uma tradicional colônia de pescadores. Da ilha se tem uma vista muito próxima da cidade. Da Pintada, a distãncia ao centro é muito menor do que de alguns bairros centrais, o que provoca um certo estranhamento. Dali, Porto Alegre está tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe… Quando se está a bordo de um barco pequeno, esta sensação se amplifica. Que diferenças abismais existem entre estes dois elementos, o lago e a cidade,.. água e pedra protagonizando um diálogo truncado, intermitente, difícil. As águas do lago, em suas generosas horizontalidades, parecem perscrutar Porto Alegre, buscando nela algum sentido. Chegam mansamente às suas margens, tateiam-na e se vão, para dar lugar a novas águas, que repetem infinitamente o mesmo ritual. E a cidade, do alto de sua imponência, parece solene, distante, expondo uma mal dissimulada auto-suficiência. Estranha Porto Alegre, que em poesia e imagem evoca as águas do Guaíba na mesma medida em que parece virar-lhe as costas. Logo percebi que as imagens que buscava para inspirar as pinturas encomendadas, estavam necessariamente ligadas a esta equação. A vista do Guaíba para Porto Alegre é espantosa. Mostra a cidade por inteiro, sem censuras. Já o contrário não é bem assim. Um muro construído nos anos 1970, a pretexto de proteger o centro da cidade de alguma enchente que jamais aconteceu, bloqueia o olhar.

Por outras razões, algo semelhante acontece em outras margens. Nos passeios realizados pelo Delta do Jacuí e pelo Guaíba, pude ver mansões e ancoradouros privados cerceando a liberdade de acesso da maioria da população àquelas águas. Na Ilha da Pintada, isso chama muito a atenção. Para quem acessa a ilha pela estrada, a vista do Jacuí está impedida por grandes e imponentes muros, que deixam claro que alguém chegou antes… Olhando do rio, estas propriedades são impressionantes. Coisas de “primeiro mundo”.  Estas propriedades contrastam de maneira impressionante com algumas casinhas muito humildes nas margens da Ilha da Maria Conga e outras ilhas. Geralmente estas pequenas propriedades são de  antigos moradores, gente que construiu identidade com a região, mas que pelo ritmo e pela lógica impostos, tendem a perder seu lugar.

70.-DELTA-DO-JACUI-I

Essas divagações seguiram depois que realizei as pinturas. Realizá-las,  aprofundou em mim  um insistente questionamento a respeito do contraste entre ritmos naturais e tecnológicos. Desde lá, cada vez mais me assombro com  a velocidade das mudanças que estamos imprimindo a tudo. São mudanças de ordem prática, mas que tem profundas implicações na nossa percepção. Resumidamente, concluí, e mesmo desejando que fosse diferente, sigo concluindo, que de uma maneira geral, estamos nos movimentando a uma velocidade incompatível com a percepção e preservação dos sistemas e ritmos naturais. Estamos nos afastando da solução, que segue movendo-se no mesmo ritmo de sempre. Tudo aquilo que não está conectado a sistemas de informação e de transmissão de energia, opera segundo princípios espantosamente alheios a nossos anseios e angústias. Convém buscar lições aí, neste mundo repleto de silêncios e solidões. O simples fato de que algo possa existir sem nossa interferência ou testemunho, é muito didático. Um mundo criado à nossa imagem e semelhança é algo perturbador, que deveria ser evitado a qualquer custo. Naquilo que não é humano  também reside nossa humanidade.   J.H.

Vista-do-Delta-Google-Earth

Imagens postadas (de cima para baixo):  (1) “A Casinha da Maria Conga” (2004 – aquarela – Jorge Herrmann), (2) “Delta do Jacuí I” (2009 – acrílica sobre tecido – Jorge Herrmann); (3) Imagem de satélite (Janeiro de 2013 – altitude de 8.990 m – Google Earth).