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Itapeva

Quando não estivermos mais aqui

Março de 2016

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Pegada ecológica” é a marca que cada indivíduo deixa sobre a superfície do planeta em virtude de seus hábitos e escolhas. Este termo foi cunhado no início do século, como forma de sinalizar o quanto as escolhas pessoais têm influência direta no equilíbrio ambiental e na qualidade de vida. Para os mais apegados ao modelo de sociedade de consumo, talvez este raciocínio seja demasiadamente abstrato. Mas uma boa forma de entender o conceito, talvez seja pensar nas crianças. Se tivermos deixado para os adultos do futuro, um mundo endurecido, sem poesia, tomado por torres de concreto, asfalto e imensos muros de condomínios de luxo, que opinião podemos esperar deles? O que dirão eles quando souberem que este mundo um dia não foi assim, que ao contrário, era repleto de cenários com encantamentos e surpresas que não tivemos capacidade de entender? Infelizmente, é necessário que se diga o óbvio: aqueles que mais dispõem de recursos, são os que têm maior potencial de alterar a superfície do planeta, pela simples razão de que suas necessidades primárias estão supridas. Portanto, é vital que todos entendam que suas escolhas são sementes. Delas, pode brotar a exclusão, com todos seus amargos frutos. Ou não…

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Sempre estivemos diante de dois caminhos. Um deles aponta para um futuro suave, de respeito e diálogo com o maravilhoso mundo que não criamos: é o caminho das pedras, o caminho do aprendizado, do compartilhamento e das pequenas coisas. O outro é o caminho que já conhecemos à exaustão: o caminho do gigantismo, das fabulosas riquezas e das espantosas desigualdades que geram violência, estupidez e alienação. Em alguns lugares, esta escolha ainda pode ser feita. Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul, é um deles. No sul do município, existe um lugar que preserva a face mais primitiva de toda região: é o Parque de Itapeva, testemunho do mundo que estava aqui antes de nós. Neste lugar ainda temos a preciosa possibilidade de aprender a respeito de limites.

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O Parque Estadual de Itapeva é uma unidade de conservação que mantém protegidos importantes remanescentes do bioma Mata Atlântica no Rio Grande do Sul. Este território simboliza o próprio espírito de Torres, por mostrar com nitidez a capacidade que esta região tem de propiciar o encontro. Em Itapeva, as dunas encontram a floresta, a floresta encontra o campo, que por sua vez encontra lagoas, que alimentam banhados, que margeiam formações rochosas… Este cenário em forma de mosaico é o abrigo para uma vida silvestre repleta de sutilezas, no qual importantes ensinamentos a nosso próprio respeito, estão guardados. Em Itapeva há vestígios da presença de um grupo humano que em outros tempos, tinha aptidão para ler os sinais da paisagem e capacidade de ver-se neles. Esta humanidade esquecida encontrou ali a abundância, e ali soube se estabelecer, deixando marcas suaves. Elas são visíveis nos caminhos ancestrais, no manejo da vegetação, nos sítios arqueológicos. Esta experiência da humanidade foi protagonizada por um povo conhecido como Guarani, que ainda está entre nós, tentando manter seu modo de vida e sua bela visão de mundo. A despeito de todos nossos julgamentos e preconceitos, esta cultura teve sucesso. Até que nossa desajeitada chegada a desmantelasse.

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Hoje, o Parque de Itapeva, mesmo sendo uma unidade de conservação de importância histórica, biológica e geológica, tem sido frequentemente atacado por interesses econômicos de visão curta e primitiva, que não conhecem nada além do lucro imediato e que só conseguem ver ali um espaço vazio.

Que critérios deveriam ser usados para avaliar o sucesso de uma cultura? Será que é aquela que elimina espécies para despejar sobre as paisagens suas gigantescas obras? Uma cultura assim pode ser competente em sua engenhosidade, mas demonstra ser tão desajeitada como um enorme elefante tentando mover-se num delicado jardim. Em termos mais diretos: é incompetente. Pois é insustentável. Não sabe estabelecer uma reciprocidade com o ambiente. Usa-o de todas as formas possíveis, devolvendo apenas dejetos, com os quais nem sabe o que fazer. Tecnicamente, esta é uma sociedade disfuncional, que o tempo, infelizmente, está tratando de transformar da pior maneira. O tempo, aliás, tem demonstrado que a única competência que este planeta suporta, é a do diálogo e do respeito a todas as suas formas de vida.

Ironicamente, chegará o momento em que a competência da nossa cultura será julgada a partir de um outro critério, ainda estranho para a maioria: a capacidade de coexistir com aquilo que hoje consideramos insignificante… Um pequeno sapo de barriga vermelha, uma minúscula ave chamada macuquinho, um simpático roedor conhecido como tuco-tuco. Estes seres podem ser pequenos, muito pequenos, mas sua presença será um poderoso indicador do tipo de humanidade que estamos sendo. Eles vivem lá, em Itapeva, atentos aos nossos próximos passos.


UMA REFLEXÃO

28 de Fevereiro de 2014

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28 de FEVEREIRO de 2014

“(…) Se ficarmos sós, apenas nós e nosso alimento,

Quem irá acordar as manhãs com gorjeios.

Urrar nas selvas, ou uivar nas estepes?

À beira de que rio cristalino sonharemos?

Em que praia deserta deixaremos nossas pegadas? (…)”

Este é um fragmento do poema “Extinção”, de autoria de Martha Richter. Martha é paleontóloga, portanto, ninguém mais apropriado para refletir a respeito de extinção das espécies. Mas Martha Richter, em seu desconforto, vai muito além, Ela não faz um inventário de desaparecimentos. Não. Ela perscruta as ressonâncias da extinção em nossa alma. Queiramos ou não,  isso nos afeta e nos afetará. Muito mais profundamente do que podemos imaginar.

Há alguns anos, uma querida amiga se surpreendeu com um relato que fiz, de que bebera água pura na beira de um rio. Sua surpresa me deixou confuso. Fiquei imaginando, se para ela, o mundo das águas puras não estaria extinto. E cheguei à conclusão de que, se a maioria das pessoas tiver uma percepção semelhante, o mundo corre o risco de ser reduzido a essa percepção…

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Preocupações com a extinção da raça humana à parte, o que me angustia na verdade é outra coisa: que tipo de humanidade seremos? Se perdermos os referenciais daquilo que já estava habitando o planeta muito antes da gente, teremos graves problemas. Pela simples, cristalina razão, de que cada espécie viva é um mistério surgido por sucessões de acasos e ajustes que levaram milhões de anos. Não é inteligente descartar tais riquezas. Isso é dificílimo de entender para muita gente. Porque o mundo vivo é uma riqueza de outra ordem. O contato com o mistério da vida nos humaniza. Paradoxalmente,  justamente onde não é humano, o mundo nos coloca diante dos limites e leis que nos geraram, revelando nossa própria natureza humana.

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O mundo tem se dado bastante bem há milhares de milênios sem a nossa ajuda. Apesar dos fantásticos avanços tecnológicos que conseguimos, nossa presença não tem melhorado muito a vida das outras espécies, com exceção talvez de cães e gatos. Criamos redutos de conforto e prosperidade em esplêndidos mundos onde a Natureza é apenas uma lembrança. E por vezes, alguns de nós até alimentam a fantasia de poder dispensá-la definitivamente de suas vidas

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Estou ao sul de Torres, litoral norte do Rio Grande do Sul, numa unidade de conservação chamada Parque Estadual de Itapeva. Representa o único território em toda orla do RS, onde dunas se entrelaçam com a mata. São dunas grandes, amareladas, pois acumulam matéria orgânica da vegetação que a elas se agarra teimosamente. Esse cordão de dunas, em sua face oeste, faz limite com uma exuberante  floresta pantanosa, também única em todo o Rio Grande do Sul. Quem vem pela Estrada do Mar, pode vê-la, compondo um bonito quadro com a cidade de Torres, que se ergue ao fundo da paisagem. Esse ambiente se tornou reserva ecológica, porque algumas pessoas de visão e sensibilidade perceberam a importância que isso teria para as futuras gerações. Elas achavam que seria lícito, prudente e sobretudo honesto, que no futuro as pessoas pudessem ter o direito de conhecer um lugar selvagem, um dos muitos e muitos lugares que o planeta criou sem a nossa ajuda.

Lugares como Itapeva são essenciais. São lembretes permanentes de que estamos aqui temporariamente, e que teremos de deixar nosso lugar para outros que estão por vir. De preferência em melhores condições…

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Mas, assim como todas as unidades de conservação do planeta, Itapeva sofre  pressões. Muito próxima de uma cidade que se expande, movida por uma incontrolável necessidade crescer, esta reserva ecológica vê suas margens permanentemente fustigadas. Existem rumores da possibilidade de construção de estradas de acesso para Torres, que se concretizadas, estrangulariam a reserva. Literalmente. A isso, soma-se um processo de urbanização dessas margens, que quando parece ter chegado ao seu limite, consegue avançar sempre um pouco mais.

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Das dunas de Itapeva, observo. Neste brando mundo de areias e vegetação,  caminho há anos, mergulhado em silêncios. Este território é a manifestação da  mais pura resiliência. Tudo aqui se adapta, mantendo a identidade. Os diálogos  e a permeabilidade entre os elementos que habitam esse ambiente selvagem são  uma permanente lição. São interações que só  acontecem porque cada ente desse lugar tem uma identidade. Mas essas identidades não existiriam se não tivessem a maravilhosa e sábia capacidade de se adaptarem umas às outras. Elas são interdependentes. E é curiosamente nisso que reside sua força e sentido. Itapeva, assim como outros lugares repletos de vida não humana, é uma metáfora. Um lugar perfeito, que não precisa de melhorias. Faremos muito bem, se pelo menos aprendermos a deixá-lo em paz, respeitando o que é, e não o que poderia ser. Teremos muito a ganhar com isso. Tanto, que talvez  jamais saibamos calcular.

J.H.

Imagens postadas (de cima para baixo): (1) Itapeva no Inverno de 2000 (2006 – acrílica sobre papel – releitura de foto de Renzo Bassanetti – Jorge Herrmann), (2) Mar de Itapeva (Janeiro de 2014 – apontamento de campo – Jorge Herrmann), (3 a 6) Itapeva (Fevereiro de 2014 – apontamentos de campo – Jorge Herrmann),


21 de JANEIRO de 2013

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Corria o ano de 1994. Eu participava de uma atividade coletiva chamada de “Arte Alerta”, iniciativa que reunia artistas e ecologistas na defesa dos ecossistemas do RS. Estávamos na segunda edição do evento, que dois anos antes, tomara conta da Usina do Gasômetro em Porto Alegre, para mostrar o que de belo e preocupante os artistas presenciaram nos Aparados da Serra. O “Arte Alerta” consistia em viagens organizadas por ambientalistas, conduzindo artistas a ecossistemas importantes, com o intuito de conhecer sua realidade, para mostrá-la à população através de sua arte.

Nesta segunda edição, o tema escolhido havia sido a Planície Costeira do RS. Uma das viagens foi feita até o Parque Estadual de Itapeva, unidade de conservação criada por pressão de ecologistas como José Lutzenberger e José Augusto Carneiro durante a década de 1970, com o intuito de proteger um ecossistema raro, único em nosso estado. Itapeva abriga um cordão de dunas que em sua maior parte é coberto por mato. São dunas altas e belas, que por terem uma barreira natural a oeste, não tem grande mobilidade, o que as deixa com uma tonalidade ligeiramente amarelada, devido à grande presença de matéria orgânica em sua composição. A tal barreira natural, é uma impressionante floresta pantanosa, que margeia todo o cordão de dunas, formando uma combinação surpreendente, um ecossistema belíssimo. Mas a efetivação de um parque é tarefa complicada, pelos muitos obstáculos que enfrenta. Apenas no início dos anos 2000 foram tomadas medidas mais concretas para consolidá-lo, e mesmo assim, a alternância de governos faz o processo ir e voltar, com prejuízos crescentes para as áreas que deveriam permanecer intocadas. O resultado daquela viagem pôde ser conferido naquele mesmo ano, na exposição realizada novamente na Usina do Gasômetro. Muita gente tomou contato com aquela realidade pela primeira vez, e o saldo foi, enfim, muito positivo. Porém, o tempo tratou de apagar os resultados. O grupo se dissolveu, e novas iniciativas dessa natureza não foram realizadas. Itapeva manteve-se em sua silenciosa rotina de resistência e adaptação frente à pressão humana. Em mim, permaneceu uma inquietação, que me fez retornar muitas vezes para lá. Ao longo dos anos, oscilei entre um desconfortável sentimento de impotência diante das alterações sofridas por aquele ecossistema, e um crescente encantamento diante das sucessivas descobertas que ele me proporcionava.

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Premido por esse contraste de sentimentos, comecei a desenhar, talvez para dar um sentido àquilo. E algo em mim sossegou. Finalmente eu encontrara meu papel nisso tudo. Tornara-me testemunha do processo conflituoso e tumultuado, da relação entre o ser humano e seu ambiente. A história das fronteiras ecológicas é viciada, rotineira e previsível. Sua rotina aponta para a transformação dos ecossistemas. Reproduz em certa medida o avanço da sociedade moderna sobre os territórios indígenas em todas as partes do mundo. Um avanço que no fundo, é inegociável. Mas negociamos. Negociamos com as forças que se opõe a este avanço, sem demonstrar condições de honrar nossos compromissos a longo prazo. Ao norte do Parque de Itapeva, a malha urbana da cidade de Torres, ano a ano impõe pequenos recuos da fronteira natural. O extremo norte do cordão de dunas está ilhado por um novo bairro, que avança com a aparente concordância do poder público. Em um outro trecho das dunas, também é possível ver uma grande mancha escura de pinus elliottis, estendendo-se cada vez mais. Árvore invasora por excelência, não se detém diante da areia solta, e indivíduos de grande porte já podem ser vistos aqui e ali, invadindo áreas de dunas. Em meus desenhos, no entanto, não privilegiei os problemas. Preferi o que era belo, admirável e instigante. É isto que eu mostro. A cidade de Torres, ao longe, faz com as areias do primeiro plano, um contraste muito revelador, e isto meu olhar perscrutou incontáveis vezes. Me impressionam, desde a primeira vez que vi, os significados latentes nessa imagem. A muralha de grandes edifícios de Torres, parece espiar. Sua dureza em tudo contrasta com a maciez das areias.

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Outro contraste, mais suave, acontece diretamente sobre as dunas. É o diálogo difícil,  que ocorre desde sempre entre dunas e mato. Conflito dúbio, cheio de relatividades. As areias são ao mesmo tempo obstáculo e acolhimento para as valentes árvores que insistem em permanecer por ali. Representam um substrato instável, mínimo, muitíssimo insatisfatório, mas ainda assim, um substrato. As árvores, por sua vez, manifestam a natureza dessa estranha relação. Sua abnegação, sua irremovível obstinação em permanecer naquele solo movediço, as faz crescer em todas as direções. Parece que se moverão a qualquer momento. Sugerem algo de animal. Me encantam. Um cenário raro.

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A monotonia das areias é apenas uma aparência. A experiência de caminhar por elas, revela sempre novas formações, sutilmente diferentes entre si, uma relativa diferença, que só é interessante por ser sutil. Parece que ao entender essas pequenas diferenças, o expectador aceita entrar num jogo. E o passeio quase sempre se prolonga muito além do planejado.   J.H.

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imagens postadas (de cima para baixo): (1) 2006 (estudo em acrílica sobre papel – releitura de foto de Renzo Bassanetti), (2) fevereiro 2012 II (desenho in loco), (3) janeiro 2012 II  (desenho in loco), (4) fevereiro 2007 I (desenho in loco), (5) imagem de satélite (Março de 2011 – altitude de 731 m – Google Earth).

Jorge Herrmann