Notícias

CRÔNICA – “SAGRADAS ASAS”

SAGRADAS ASAS

Maio de 2018

Certa feita tive um grande amigo. Era uns vinte anos mais velho que eu. Sujeito pacato, tinha uma conversa pausada e cheia de uma sabedoria simples mas profunda. Tinha também uma qualidade indispensável: sabia ouvir. Por conta disso, conversávamos horas a fio. Mas cultivava um hábito que me causava um certo desconforto. Meu amigo “colecionava” aves. Parecia de bem com a vida, no entanto aquele péssimo hábito não parecia muito combinar com isso. Ele costumava capturar as aves num mato remanescente perto de sua casa. A sua “coleção”  já tinha sido maior, mas quando o cigarro lhe levou parte de um pulmão, muito desta disposição acabou arrefecendo.

23.-Curió

Eu me surpreendia de nunca ter brigado com ele por causa das aves. É que  sem que eu soubesse, já havia chegado o tempo de entender que  todas pessoas são o resultado de incontáveis circunstâncias. E que não era mais possível julgá-las a partir das minhas. Esta lógica ainda era um pouco nebulosa, mas já me possibilitava tocar no assunto de uma forma amistosa. Então consegui, com alguma dificuldade, expor ao Luís que não parecia lógico roubar o voo de um ser que tinha nascido para voar. Lembro vagamente de duas ocasiões em que devo ter colocado a coisa neste termos, não mais do que isso.24.-Saíra-sapucaia

Muito tempo passou sem que esse tema voltasse à tona. Até que um dia, meu amigo me surpreendeu: “-Soltei todos!”, disse ele. A princípio não entendi ao que estava se referindo, mas logo percebi que para ele, aquela conversa sobre as aves nunca tinha sido encerrada. Me contou então, que um dia levou todas as gaiolas até o mato e as abriu, libertando as aves para aquilo que lhes era inato: voar! A obviedade tão linda daqueles animais resgatando um voo tantas vezes proibido, encheu os seus olhos. E o Luís, na forma simples que tinha de dizer as coisas, descreveu um sentimento novo, que não conhecia. Eu próprio talvez ainda não conhecesse este sentimento, mas naquele dia creio ter entendido o quanto a conquista de um amigo podia também ser minha.

43.-Macuquinho

Poucos anos depois, o cigarro cobrou o resto da conta. Uma suave morte levou meu amigo e ele voou para outras belas paragens,  como todas as almas que terminam em paz os seus dias aqui na Terra. Desde então, fiquei com esta lembrança volta e meia vindo à tona, como um chamado. Até que um dia, trazidas por pincéis e tintas, certas aves pousaram em minha mesa. E elas estão aqui, acompanhando esta narrativa. São algumas das aves mais ameaçadas do Rio Grande do Sul. Alvos constantes de seres humanos que ainda não refletiram sobre a irracionalidade de seus atos, algumas se tornaram tão incomuns que até parece impossível ainda existirem por aqui.

37.-Jacutinga

Torço pela sobrevivência destes animais, num pleno e arrebatado exercício de esperança. Torço como se as suas circunstâncias não fossem tão avessas. Torço assim, porque a rica experiência vivida nas longas conversas com o Luís, me mostrou que sempre há esperança quando as pessoas se ouvem. Por ter aprendido a ouvir, fui ouvido. E algo muito pequeno, ínfimo, mudou. Mas para sempre.

As aquarelas que ilustram esta edição, são de autoria de Jorge Herrmann, e integram o e-book de haikais “Salve Nossos Animais” de Nilva Ferraro. A obra homenageia a fauna nativa do RS ameaçada de extinção, e pode ser adquirida na Amazon, através do aplicativo Kindle.

As aquarelas estão disponíveis para aquisição através dos contatos: arte@jorgeherrmann.com / facebook.com/jorge.herrmannn.7 / (51) 992.407.038 (whatsapp)

São estas, pela ordem: 1) “Curió” (aquarela – 17×15 cm – R$ 180,00); 2) “Saíra Sapucaia” (aquarela – 20×14 cm – R$ 180,00); 3) “Macuquinho” (aquarela – 15×11 cm – R$ 180,00); 4) “Jacutinga” (aquarela – 27×20 cm – R$ 200,00);

As obras de Jorge Herrmann podem ser apreciadas na Galeria de Arte do Espaço Cultural Ten Caten, em Torres, à rua José Picoral, 174.

Deixe um comentário