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CRÔNICA – “AS IGREJAS”

AS IGREJAS

Outubro de 2018

2.-Caminho-da-Santinha-I

Fevereiro de 2018 – Um som grave e ritmado martela o silêncio da manhã. Um bando de gente está dançando sobre o Morro do Farol, ao som de uma coisa que parece ser música. O ruído é pesado, impositivo, invade o sossego dos outros. Os que pulam nesse arremedo de dança, parecem estar à espera do nascer do sol. Mas o sol surge meio desconfiado e apenas espia entre as nuvens claras que cobrem o horizonte. Meu caminho felizmente me afasta desta cena de desencontro, e subo o Morro das Furnas em busca de um desenho.

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Chegando ao ponto planejado, vejo ao longe, na beira do abismo, um homem solitário que contempla o mar. O desenho sai fácil, me surpreende, e quando estou quase terminando, o homem vem em minha direção e pede para ver. Se desculpando, me pergunta se eu poderia lhe dar o desenho. Não posso. Explico que o desenho é um diálogo com esta paisagem e é parte da minha luta diária pela sobrevivência. Ele me conta então que estava num momento com Deus, e que se surpreendeu ao ver isso registrado num desenho.

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Quando ele se vai, fico matutando: quer dizer que então que aqui neste lugar, onde não há marcas da presença humana, este homem sentiu-se diante de Deus… Olho mais uma vez para a paisagem. É muitíssimo antiga… Provavelmente dali onde estava, ele via exatamente a mesma imagem de tempos imemoriais, quando a existência humana era apenas uma vaga possibilidade. E neste lugar intocado, escancarou-se a evidência de uma energia criativa poderosa, que habita tudo o que existe. A paisagem revelou-se então como um testemunho.

1.-Guarita-I

Aí  lembrei de algo que ouvi certa vez de um mbyá guarani chamado José Wherá: “-Não entendo juruá. Juruá vai na igreja só no domingo. Mas porque, se a igreja é todo dia?!”. Disse isso fazendo um gesto dirigido à paisagem à nossa volta. Eram palavras simples, mas com imensa profundidade. O que José Wherá estava expressando, é que em cada recanto de natureza, já há uma igreja, e que nós, juruás, não conseguimos reconhecer isso. Para minha surpresa, percebi que eu próprio não reconhecia com clareza este conceito, e que só me desfazendo de minhas incômodas certezas, é que poderia me aproximar um pouco do seu profundo significado.

3.-Morro-das-Furnas-e-Torres-Sul

Outubro de 2018 – No cenário mais característico de Torres, acabam de construir algo que estão chamando de monumento. Trata-se de um enorme e pesado letreiro. Ele diz: Torres.  Sempre pensei que a Natureza não precisasse de legendas… O “monumento” seria até uma boa ideia se estivesse em outro lugar, muito diferente: a entrada da cidade. Ali, Torres é irreconhecível, e o que se vê é absolutamente diferente do que se esperaria de uma cidade turística litorânea. Ali, de onde não há mais quase  vestígios do mar, uma legenda seria perfeita… Lembro então das palavras de José Wherá e me vem uma vontade invencível de seguir em frente, na busca dos horizontes protegidos de nossas desajeitadas intervenções. E sigo, desenhando e pintando, tentando expressar aquilo que as palavras não conseguem, encontrando aqui e ali, a face não humana da vida, aquela que um dia afinal, poderá verdadeiramente revelar nosso lugar no mundo. J.H.

As obras que ilustram esta edição, são de autoria de Jorge Herrmann e estão disponíveis para aquisição. São estas, pela ordem: 1) “O Caminho da Santinha” (grafite sobre papel – 20×15 cm – R$ 150,00); 2) “Morro das Furnas – 13 de outubro de 2018” (grafite sobre papel – 20×15 cm – R$ 120,00); 3) “Morro das Furnas – 06 de janeiro de 2018″ (grafite sobre papel – 20×15 cm – R$ 120,00); 4) “Guarita e Torre Sul” (grafite sobre papel – 20×15 cm – R$ 120,00); 5) “Morro das Furnas e Torre Sul” (grafite sobre papel – 20×15 cm – R$ 150,00); Imagem de abertura: “Entrada de Torres” (nanquim sobre papel – 15×10 cm).

Contatos: arte@jorgeherrmann.com – facebook.com/jorge.herrmannn.7 – (51) 992.407.038 (whatsapp)

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